Homenagem a Nossa Senhora Aparecida!

Por Renato Teixeira

Minha amiga Rose Saldiva, toda feliz ao telefone, me informava que, segundo suas pesquisas sobre o perfil do  cidadão taubateano encomendado por uma grande multinacional, Romaria era identificada por noventa por cento da população como a “música da cidade”.

O fato de morar ao lado de Aparecida e sempre ir até lá me possibilitaram falar com naturalidade do romeiro e sua saga em busca do milagre. Acredito que, para pessoas que chegam de lugares mais distantes, a Basílica possa representar um sonho maior, o desejo de toda uma vida que se realiza, e as põem perplexas diante da grandeza e do poder da fé, representadas pelo magnífico templo que o povo ergueu para reverenciar a padroeira do Brasil.

Mas aqui na terra de Lobato, Aparecida sempre será uma cidade familiar. Dos tempos mais freqüentados, aqueles que vão até minha mudança pra São Paulo, ainda posso recordar, com muita transparência, a época em que os comerciantes enfeitavam a entrada de suas lojas usando velas dos mais variados tamanhos dispostas de modo a simular uma espécie de “porta para o paraíso” onde todas as nossas reivindicações depositadas aos pés de Nossa Senhora, seriam atendidas de uma forma ou de outra; bastava que pedíssemos com fervor e acendêssemos uma vela como prova da nossa gratidão.

E não poderia ser diferente uma vez que o povo brasileiro, na maioria das vezes, sempre foi atendido pela Mãe Santíssima nos momentos de maior precisão. A prova da eficiência da crença na Padroeira é o grau de satisfação dos fíeis que sempre voltam agradecendo as graças recebidas. Misteriosa e bela Aparecida do Norte.

A primeira vez que meu filho João viu a Basílica saltar à nossa frente depois de uma curva certa da Presidente Dutra, seus olhos cresceram como se ele estivesse precisando de mais olhos para satisfazer-se plenamente com aquela visão que invadira o espaço adiante.

Muitos de nós ainda lembram da imagem de Nossa Senhora Aparecida vindo nos visitar e sendo saudada na praça

Dom Epaminondas com gritos de “viva Nossa Senhora Aparecida!!!!”… e o povo repetia “…Vivaaaaaaa!”. Coisa muito linda! Saltam da memória as alunas do Bom Conselho em bandos, o perfume do incenso e das flores flutuando no ar, e o Catate vestido de príncipe. Minha música Romaria não é um hino de louvor à Padroeira do Brasil. Minha canção é uma visão de quem está para cá dos altares, no meio dos fíeis que a saúdam.

Em Aparecida, eu vejo os Romeiros, aqueles que vão chegando finalmente ao grande momento planejado. Ir à  Aparecida não é uma coisa banal; são fatos que se tornarão perenes e enriquecerão a memória familiar como um exemplo de humildade diante dos mistérios da vida. Todos nós, em algum momento da existência, pensamos no quanto um milagre seria oportuno diante de certas situações pelas quais todos nós, às vezes, temos que atravessar.

Quando compus Romaria estava curtindo os poetas concretistas brasileiros. Décio Pignatari, os irmãos Campos e todos os outros ousadíssimos cidadãos que gostam de se parecer com bichos de sete cabeças. A poesia concreta é um atalho que, eliminando toda a lógica da forma de compreender que praticamos no dia-a-dia, nos deixa frente-a-frente com a origem de todos os nossos sentimentos. Sua “visualidade” contribui para que possamos criar uma nova concepção, um jeito mais complexo de compreensão. Minha música teria também que soar como uma contestação; a cultura caipira não estava esgotada e superada como queriam nossos formadores de opinião.

Nada como algumas pitadas concretistas para mostrar que não éramos Jecas e que poderíamos andar lado a lado com as tendências mais avançadas, muito além da bossa nova ou travestidas de arte tropicalista, esta sim, intrigante e revolucionária, mesmo que repetindo muitas das ousadias que motivaram os modernistas de 22.

Elis gravou a música e o sucesso me surpreendeu completamente. Nunca pensei em compor algo fácil. Queria uma coisa mais sofisticada e a influência concretista deixava isso claro. Num determinado momento, cheguei a duvidar da sofisticação intelectual que pensei ter colocado na letra. Será que errei? Mas a resposta veio na virada dos anos setenta para os oitenta, quando, fazendo uma retrospectiva da poesia musical da década que se encerrava, Augusto de Campos, um dos nossos maiores mestres concretistas, publicou na revista Veja que Romaria era a única obra da música brasileira naquela década elaborada sob a ótica do concretismo. A interpretação da Elis me causou a sensação de que, com ela cantando, a música ficara finalmente pronta.

A canção também ajudou a reverter o abandono em que se encontrava a música caipira e sua história. Com Romaria sendo cantada pela Elis, o gênero se regenerou; com a entrada do Sérgio Reis, produzido pelo taubateano Tony Campelo, e da dupla Léo Canhoto e Robertinho, conseguimos projetar um futuro mais generoso para a herança deixada por mestres como João Pacifico, Raul Torres e o nosso genial Anacleto Rosas.

Meio que sem querer, eu cumpri uma missão pioneiramente taubateana: repaginei a música caipira dando a ela um perfil mais condizente com sua grandeza original, readaptando-a a uma linguagem, digamos, mais MPB e mais adequada aos tempos modernos.

Sua benção, mestre Theodoro Arrael… mais uma vez, obrigado por tudo!

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