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Economia #Economia A greve dos caminhoneiros: a mentalidade brasileira

#Economia A greve dos caminhoneiros: a mentalidade brasileira


Por Fábio Almeida*

 O preço de combustível no mundo é formado a partir de duas variáveis: petróleo e dólar. O petróleo é uma commoditie mineral. As commodities têm seu comercio realizado em dólar. Se o valor do dólar sobe, isso impacta no preço. Outro fator é o nível de produção global: se o estoque aumenta, o preço cai; se o estoque é reduzido, o preço aumenta. O dólar tem se valorizado em relação a todas as moedas do mundo. A redução do estoque de petróleo resultou no aumento do preço do barril.

A atual política de preços da Petrobras está correta, pois acompanha o comercio internacional. A dependência do petróleo é surreal, pois o Brasil poderia ter aumentado sua produção de etanol, expandindo a produção de cana-de açúcar, eucalipto e milho para esta finalidade. Vários países no mundo estão mudando a sua matriz energética, investindo em biocombustíveis, e carros elétricos. A composição do preço da gasolina na Petrobras é feita da seguinte forma conforme a figura 1:

Figura 1 – Composição do preço da gasolina. Fonte: G1/ANP. 2018

 Como é possível perceber na figura 1, 45% do valor da gasolina são impostos destinados ao Governo Federal e aos Estados. Mas, ao contrário do que muitos pensam, o preço da gasolina do Brasil não é tão diferente do resto do mundo, conforme verificado na figura 2:

Figura 2- Média em 2017 (Jan-Nov) de preço em dólar por litro de gasolina. Fonte: CEPEA/USP. 2017

Na figura 2, é percebido que a gasolina é mais barata no Chile, EUA, Canadá e China. EUA e Canadá dependem menos de petróleo por investir em outras tecnologias, e também porque o tamanho do Estado é restrito. A China porque atua para mudar sua matriz energética. No Chile o Estado é reduzido. Já no Reino Unido, Alemanha, Itália, Uruguai e Japão o preço é mais elevado do que no Brasil. Uruguai e Itália cobram impostos altos porque o Estado é gigantesco. Alemanha, Reino Unido e Japão embora tenham Estado pequeno, cobram impostos elevados a fim de desestimular o consumo de gasolina, pois promovem o uso de biocombustíveis e carros elétricos. Outro dado bastante relevante: apenas dois países cobram menos impostos que o Brasil na gasolina: EUA e Chile. Por um único motivo: o Estado é bastante reduzido nestes países.

Segundo dados da GlobalPetrol Prices (dados de maio de 2018)a Arábia Saudita tem a segunda maior reserva de petróleo do mundo, e o preço da gasolina custa R$ 2,16 por litro. A gasolina também é muito barata no Irã (R$ 1,02/litro) e no Sudão (US$ 1,24/litro), dois grandes produtores. Na Venezuela, temos a gasolina mais barata do planeta: R$ 0,04. Ninguém quer morar no Irã, Sudão ou Venezuela para desfrutar de gasolina barata. Enquanto que a gasolina mais cara do planeta encontra-se em: Hong Kong: R$7,73; Islândia: R$ 7,70; Noruega: R$ 7,44; Holanda: R$ 7,11; e Dinamarca: R$ 7,04.

Especificamente no que se refere ao preço do diesel, sua composição é praticamente a mesma da gasolina no Brasil. Todavia, é preciso entender as causas estruturais que contribuíram de maneira significativa para deflagração da greve dos caminhoneiros. A figura 3 ilustra a raiz deste problema:

Figura 3– Frota de caminhões em milhões de unidades entre 2005 a 2017. Fonte: Confederação Nacional dos Transportes. CNT. 2018

É possível perceber na figura 3, que houve acelerado aumento da frota de caminhões. O Governo Federal passou a subsidiar juros para que estes pudessem ser adquiridos a preços mais baixos. Caminhão é um bem de capital importante, mas quando se artificializa o seu crescimento, gera distorção na economia do setor. De acordo com especialistas nesta área, o Brasil necessitaria em torno de 30 a 40 mil caminhões por ano para renovação da frota. Em 12 anos, o Brasil aumentou em 1 milhão sua frota de caminhões, e seria necessário apenas 400 mil. O Brasil tem atualmente cerca de 600 mil caminhões excedentes. Por causa disto, o valor do frete caiu, e isso faz com que o preço do diesel impacte de maneira significativa nos custos deste setor.

A greve dos caminhoneiros prejudicou o conjunto da economia, com impactos negativos em investidores (como investir em um país instável?), além de contribuir para o aumento da inflação no curto e médio prazo. Somando-se a isto, o pacote para redução do diesel custará 14 bilhões. Isso irá resultar inevitavelmente em aumento de impostos em outros setores, pois diante do atual nível de despesas obrigatórias, o governo não tem como prescindir de receitas, conforme é possível verificar na figura 4:

Figura 4 – Despesas globais dos três níveis de governo em proporção do PIB.

Conforme pode ser identificado na figura 4, 87,3% do PIB é comprometido com despesas obrigatórias. Sendo assim, apenas 12,7% do que o governo arrecada é destinado para investimentos, infraestrutura, custeio da máquina pública, saneamento, segurança, tecnologia, cultura, e esportes.

É possível perceber que o Brasil gasta muito e gasta mal. Para exemplificar isso, vemos o gasto do PIB do Brasil apenas com funcionalismo público federal, estadual e municipal. O Brasil gasta 13,1% do PIB com servidores públicos. O percentual brasileiro ultrapassa os gastos de países como Estados Unidos (9,2%), Chile (6,4%), e Austrália (9,6%). Gasta mais até do que países que tem Estado grande como Portugal (11,3%) e França (12,9%). Assim, também são os gastos com educação, saúde, juros da dívida pública, previdência, pois são bem mais elevados que de outros países. Isto sem contar as jabuticabas: desonerações (9%), renúncias fiscais (4%) e subsídios (7%), que só existem no Brasil.

Diante do tamanho das despesas obrigatórias, com 150 estatais, e as distorções que temos em todos os setores da economia, achar que o governo pode baixar impostos ou reduzir preços apenas por um ato de vontade, não passa de uma crença bastante ingênua. Para ter gasolina, diesel, e outros bens ou serviços baratos, é preciso privatizar estatais, reformar a previdência, o sistema tributário, melhorar o ambiente de negócios, combater privilégios de corporações, cortar desonerações, renuncias fiscais, e subsídios, além de melhorar o nível do gasto público.

Os caminhoneiros estariam defendendo a sociedade se estivessem pedindo a redução do Estado, a privatização da Petrobrás, a quebra de seu monopólio, maior competição no setor de refino, pois isto iria reduzir o preço dos combustíveis. Querem intervenção do governo no preço do diesel para a sociedade pagar a conta. O negócio é saber até quando o Brasil irá aguentar um Estado que gasta mais do que arrecada, e caminha celeremente para insolvência, podendo virar na melhor das hipóteses um Rio de Janeiro, ou na pior, uma Venezuela.

*Economista.

Elielson Lima 31 maio 2018 - 7:00m

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