Economia #Economia Lição Argentina: Reformas gradualistas não funcionam

#Economia Lição Argentina: Reformas gradualistas não funcionam


Por Fábio Almeida *

A Argentina encontra-se em crise cambial. Fato que vem se repetindo ao longo do tempo em sua desastrada história econômica, que desafia a lógica elementar, pois se trata de caso único no mundo: um país rico que se tornou extremamente pobre. O dólar disparou na Argentina, colocando pressão sobre a inflação, que já estava fora de controle (a meta inflacionária é de 15%), e também sobre os juros, que atingiram os incríveis 40% para tentar segurar a moeda americana. Como não há reservas suficientes para amenizar a crise cambial, recorreu-se ao FMI em busca de ajuda.

Mauricio Macri deu azar com a conjuntura internacional adversa para os países emergentes. Errou em optar por um regime gradualista de reformas, porque este tipo de mudança só daria certo em um ambiente externo favorável. Quando ele assumiu os preços estavam congelados, as tarifas eram baratas à custa de subsídios pagos pelo governo, que contraia dívida cada vez mais cara, e imprimia dinheiro. A inflação real passava dos 50%. Em pouco tempo, Macri conseguiu regularizar a situação externa do país, encerrando uma moratória de décadas, captou 100 bilhões de dólares, e começou a desmontar os estragos da era Kirchner, só que de maneira gradual. Estimulou o crescimento, colhendo um aumento de 2,9% do PIB em 2017.

O ajuste argentino gradual começou a dar errado a partir da aceleração da economia americana, que vem crescendo mais do que todos os países desenvolvidos. O título do tesouro americano de dez anos tinha seu rendimento perto de 0%, hoje está pagando 3% ao ano, o equivalente papel alemão, paga apenas 0,5%. Embora os títulos públicos dos países emergentes paguem mais, é atraente e seguro ganhar os 3% do tesouro americano, do que os 6% em reais, ou 40% em pesos argentinos. Com a ida dos capitais para os EUA, o dólar se valoriza contra todas as moedas do mundo, e os países emergentes com mais fragilidades, como Argentina, Brasil, Rússia, tendem a sofrer mais com aumento da dívida pública, inflação, e baixo crescimento.

O populismo da era Kirchner funcionou por algum tempo, e como todo populismo se ganha eleição, se tem recordes de popularidade, gerando na sociedade um sentimento positivo, mas depois tudo desaba, e vem à recessão, o desemprego, o endividamento do país, e uma conta pesada para o sucessor. Macri sabia desta conta salgada. Errou ao tentar amenizar os efeitos do ajuste na sociedade argentina. Ele deveria ter descongelado todos os preços imediatamente, além de cortar todos os subsídios, reduzir fortemente os gastos públicos, e efetuar reformas estruturais. Isto resultaria em uma forte recessão. Infelizmente, esse caminho é inevitável. Faltou coragem política e votos no senado argentino (controlado pela oposição) para fazer reformas sem gradualismo.

A história econômica do país vizinho (excetuando-se o fato de que nunca fomos ricos) é bastante parecida com a nossa. O governo Dilma vinha deliberadamente piorando a situação fiscal, maquiando o orçamento com as chamadas “pedaladas”, e segurando os preços da energia elétrica e dos combustíveis. Ao mesmo tempo, o déficit externo crescia, chegando a 4,2% do PIB em 2014, muito próximo do que é considerada a zona de risco de crises cambiais, de 4,5% do PIB. Isto resultou na maior recessão da história, endividamento público, e no maior nível de desemprego da história.

Essa bomba-relógio começou a ser desmontada quando o então ministro da Fazenda, Joaquim Levy decidiu acabar com os controles de preços. O custo foi uma elevação rápida da inflação e, em seguida, dos juros. O ajuste foi completado pela equipe econômica que assumiu depois do impeachment, com a criação do teto de gastos, reforma trabalhista, mudança da TJLP do BNDES, mudança da regra de partilha da Petrobrás, e redução em 80% do estoque de swaps cambiais. Além disto, a nova diretoria do Banco Central recuperou a confiança do mercado. Porém, essa confiança começa a se dissipar devido à incerteza das eleições deste ano, a falta de reformas estruturais no horizonte (Tributária, Previdência), e o cenário internacional.

O Brasil continua com um déficit elevado, e sua dívida pública não para de crescer, sem um ajuste fiscal crível, o país irá cair em novo ciclo recessivo, com alta de juros, e de impostos, e elevação do número de desempregados. Eis a grande lição argentina: as reformas estruturais não podem ser feitas de maneira gradual, por mais impopulares e difíceis politicamente precisam ser efetuadas de maneira efetiva.

O eleitor brasileiro precisa ter clareza: o Brasil precisa de reformas duras e difíceis para evitar um novo ciclo recessivo, ainda pior do que o produzido na era Dilma. Isso requer um candidato que tenha condições políticas, e uma equipe econômica do primeiro time para efetuar reformas, sem gradualismo, explicando abertamente não apenas a necessidade, mas os seus efeitos amargos. As reformas são imprescindíveis para evitar uma tragédia econômica no Brasil, e a conjuntura internacional não comporta qualquer tipo de gradualismo.

*Economista.

 

 

 

Elielson Lima 17 maio 2018 - 7:00m

Comentários

Pesquisar

Curta no Facebook

Refiz Paudalho

Publicidade

Arquivos do Blog

Prefeitura de Itaquitinga