Economia #Economia: Indústria, Protecionismo e Eleições

#Economia: Indústria, Protecionismo e Eleições


 

São estupefacientes as panaceias em ano eleitoral que são disseminadas por candidatos a Presidente da República acerca da indústria. Em especial, por dois: Ciro Gomes e Fernando Haddad. Ambos advogam que o protecionismo é a chave para o desenvolvimento industrial, e requentam soluções tentadas ao longo da história dos governos de Getúlio Vargas, dos Militares, de José Sarney, de Dilma Roussef, sempre com o mesmo resultado: atraso tecnológico, falta de competitividade, aumento do gasto público com os setores protegidos, ineficiência, e o pior de todos: redução da produtividade total dos fatores.

Os candidatos que defendem as medidas protecionistas asseguram que a indústria internacional faz mal a economia doméstica, sendo necessário proteger a indústria nacional. Qualquer análise superficial no assunto demonstra o quanto este raciocínio é bisonho. A lógica é bem tosca: sempre quando se impõe uma tarifa a um setor, a importação dos bens é restringida, o que aumenta a produção interna. Isso resultaria em ganhos imediatos com emprego e renda no setor protegido. Todavia, como sabem que em economia nada é simples, se tiver algum efeito colateral, se impõe barreira a todos os bens importados, e assim a produção aumentaria e ficaríamos mais ricos. Será? Quem se lembra da restrição da famigerada lei de informática? Por que os candidatos não param de demagogia e de proporem soluções fáceis para problemas complexos? Por que não olham para os resultados do passado para ver que o protecionismo nunca deu certo? Por que os economistas heterodoxos insistem nestas balelas se as evidencias internacionais e os estudos de campo feitos no Brasil demonstram que isso não funciona? Ignorar as evidências que demonstram que proteção gera distorções na economia, não aumenta emprego, e faz com que os setores protegidos se tornem ineficientes, é apostar na boa fé das pessoas para angariar votos.

O BNDES gastou quase 1 trilhão de reais durante os anos de 2006 a 2014 em subsídios, o governo protegeu setores, qual foi o fim desta aventura: maior recessão da história, maior desemprego da história, e empresas falidas como a Sete Brasil, grupos cupidos como a JBS que cresceu com o dinheiro público, e ilusões como Eike Batista, Refinaria de Abreu e Lima, e muitos outros empreendimentos deficitários e que só servem para onerar os cofres públicos, custear campanhas políticas e fazer fortunas pessoais de alguns poucos.

Quando se faz política industrial e se protege setores, geralmente se esquece dos custos de oportunidade. Quando restringimos a importação de carros estrangeiros, por exemplo, aumentamos a produção interna e criamos empregos no setor automobilístico. O problema é que agora as pessoas terão que comprar carros nacionais mais caros (sim, mais caros; caso fossem competitivos não precisariam de proteção pra ganhar mercado) sobrando menos renda pra consumir com todo o resto. A consequência pouco observável é a perda – ou menor ganho – de emprego e renda em todos os demais setores. E, no médio prazo, vem o desemprego, a quebradeira do setor protegido por não ter condições de competir devido a baixa produtividade, ineficiência, e o atraso tecnológico em relação aos seus pares internacionais. O segundo efeito pouco óbvio à primeira vista vem do câmbio: importamos carros em dólar e compramos carros nacionais em real. Pra converter uma coisa pela outra precisamos trocar as moedas no mercado de câmbio. No exemplo dado, a partir do momento em que se impõe uma barreira a importação, reduz-se a demanda interna por dólar e a oferta de real.

As pessoas estarão trocando menos moeda nacional por estrangeira pra importar carro, correto? Essa interação entre oferta e demanda monetária irá valorizar o real em relação ao dólar, e isso por sua vez irá prejudicar todos os setores exportadores, que perderão empregos e escala. Pensemos um pouco e vejamos o quanto é óbvio: Nós não pegamos moeda estrangeira pra queimar ou enterrar. Usamos essas divisas para adquirir bens e serviços do exterior. É de se esperar que, de alguma forma, ao dificultar-se a saída de divisas, também prejudiquemos a entrada. Ou alguém espera que surpreendentemente os dólares comecem a se acumular aqui dentro em pilhas continuamente por causa de uma tarifa? Como isso aconteceria e com que finalidade os agentes agiriam assim?

Tendo em mente o que acabamos de perceber, fica claro que o efeito líquido de emprego e renda de qualquer medida protecionista precisa ser avaliado tanto em ganhos para o setor protegido quanto em perda para todos os outros – incluindo as famílias que agora terão que desembolsar mais dinheiro por produtos de pior qualidade. Esse efeito líquido sempre é negativo por 2 motivos: Primeiro, protegemos, por definição, setores menos eficientes que os estrangeiros, o que reduz a eficiência média da economia. Além disso, o colateral é a perda de empregos nos setores até então exportadores, os quais já eram capazes de competir a nível global. Trocamos empregos mais produtivos por empregos menos produtivos. Segundo, ao dificultar-se a entrada de bens estrangeiros, tornamos a concorrência mais nacional e menos global. Setores menos concorrentes são, ninguém ousaria negar, menos eficientes. Tragicamente, os ganhos locais são bem visíveis e as perdas gerais muito diluídas. A tendência é que cada grupo de interesse que representa um setor tente puxar a sardinha pro seu lado, num frenesi sem fim em que todo mundo tenta ganhar as custas de todo mundo. O resultado é o país inteiro mergulhado em burocracia e ineficiência – como foi na década de 80 e ainda é, mas em menor escala, atualmente.

Outro ponto que merece ser ressaltado é que: os candidatos protecionistas ou não sabem ou mentem deslavadamente sobre ó óbvio – a vantagem absoluta nos setores da indústria não importa para determinar quem vai produzir e vender quais mercadorias no comercio global. O que determina isso é a vantagem comparativa, conhecida desde o século XIX e publicada por David Ricardo. A antiga teoria das vantagens comparativas foi reformulada e confirmada sob os parâmetros neoclássicos com o modelo de equilíbrio geral Heckscher-Ohlin na década de 70, rendendo um Nobel aos seus criadores. Ou seja, não adianta proteger, por exemplo, o nosso setor farmacêutico, quem for competitivo com qualidade de preço vai liderar o comercio global, e vender tanto em seu país quanto nos outros. No Brasil, 80% da química fina da indústria farmacêutica vêm do exterior, e proteção não irá mudar essa realidade, porque se proteger ficará sem remédios, pois não se tem tecnologia, expertise e condições de competir neste segmento.

A partir de 2011, aliás, a indústria passou a pesar mais no emprego que no produto, muito provavelmente por causa das intervenções microeconômicas desastradas do governo Dilma. Numa situação como essa, uma indústria que não consegue avançar em termos de produtividade inevitavelmente terá que encolher em participação na mão de obra – e em alguma escala, no PIB – para que se torne competitiva em termos qualitativos novamente. É o que está acontecendo conosco.

Muita gente acha que o problema da nossa indústria é capacidade ociosa ou simplesmente de tamanho. Teríamos que colocar gente pra trabalhar nela, aumentando o tamanho a qualquer custo. O problema é que enquanto o setor industrial estiver com a produtividade esganada em relação ao restante da economia, uma expansão no emprego industrial tende a diminuir o rendimento médio da mão-de-obra no setor (rendimento decrescente de escala) e, portanto, no país, nos empobrecendo. E para que, depois dessa brincadeira, a indústria volte a ser competitiva novamente em termos qualitativos, lá virá outra crise. Simplesmente não é sustentável.

Hoje, os países pobres e de renda média conseguem facilmente ter vantagem comparativa na indústria manufatureira por causa de um ponto bem simples: salários. Os países ricos são relativamente abundantes em capital e escassos em mão de obra, ou seja, juro baixo e salários altos. Os países pobres são o oposto: abundantes em mão de obra e escassos em capitais, ou seja, juros altos e salários baixos. A tendência em uma situação de livre fluxo de mercadorias e capitais é que as empresas dos países ricos migrem para os países pobres para aproveitar os baixos salários e o alto retorno ao capital investido. No longo prazo, o que observamos é uma equalização dos fatores de produção entre os países, aproximando os pobres dos ricos em termos de renda.

É óbvio que aos países pobres não basta ter baixos salários. Construir uma economia saudável, com inflação e dívida controladas, é fundamental. Também é necessário ter um ambiente de negócios decente, que seja pró-concorrência, pró-abertura e pró-investimento, assim como melhorar os indicadores educacionais.

Para que uma expansão da indústria no PIB seja benéfica, ela terá suceder uma melhora qualitativa, ou seja, uma melhora na produtividade. Quando a nossa indústria conseguir produzir mais com a mão de obra que já emprega, valerá a pena colocar mais gente para trabalhar nela.

A única questão relevante é: Como tornar a indústria brasileira mais produtiva? Como fazer a hora trabalhada do operário industrial produzir mais em valor? Se queremos realmente uma indústria competitiva a nível internacional, deveríamos estar nos debruçando sobre isso. Ciro Gomes e Haddad não falam nada a este respeito. O que não faz sentido é tentar de novo as políticas industriais fracassadas que tanto atrasado, ineficiências e desperdício do dinheiro publico vem nos causado desde o século passado.

Fábio Almeida

 

Lucas Rocha 13 set 2018 - 14:49m

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