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Economia #Economia O que será de “nós” em tempos de tanta incerteza?

#Economia O que será de “nós” em tempos de tanta incerteza?


Por Fábio Almeida*

É comum ouvir na imprensa acerca do cenário político e econômico atual a palavra incerteza. Os economistas e os players do mercado financeiro cada vez mais a utilizam tanto para expressar suas angústias quanto para justificar medidas protetivas. A leitura da obra de Nassim Nicholas Taleb é indispensável como reflexão sobre a incerteza. Taleb, um imigrante libanês que ganhou muito dinheiro no mercado de derivativos de Wall Street e, após acumular uma quantia suficiente para manter sua independência intelectual, abandou o mercado financeiro e passou a se dedicar à escrita. Quatro dos seus livros formam um corpus teórico único e foram publicados no Brasil: Iludido pelo acaso; Arriscando a própria pele; A lógica do cisne negro; e Antifrágil.

Fiquei impactado pelas abordagens desenvolvidas em seus quatro livros. Além destes, ele publicou mais dois livros técnicos: Dynamics Hedging (1997) que o transformou em uma lenda do mercado de derivativos; e o Silent Risk (2014) que aborda através de exemplos práticos várias ideias apresentadas no livro Antifrágil.

A obra de Taleb é fundamental para entendermos o atual contexto brasileiro, e também o papel da instabilidade sobre a qual se assenta a vida contemporânea, caracterizada por um fluxo insano de informação em tempo real, de interação com diversas pessoas nas redes sociais, com o trabalho ocupando cada vez mais espaço no nosso cotidiano e, o que nos resta ao final de dias, semanas, meses, ou até anos, é a incerteza que parece ser inerente a todas as coisas. Isto me fez lembrar-se de uma frase de Albert Camus sobre o mundo – “o absurdo e a incerteza estapeiam a nossa face a cada esquina”.

A obra de Taleb ao primeiro momento parece dispor de conceitos aparentemente complexos, mas que na verdade, são bastante simples, porque nós os vivenciamos em nossos cotidianos, por mais dispares e diferentes que possam ser. O primeiro conceito importante é do black swan (cisne negro), uma metáfora para eventos que são improváveis. Para ele, um cisne negro é um evento raro, mas que passa a ser compreensível somente após ter ocorrido, e este evento pode impactar de maneira positiva ou negativa a nossa vida. A partir daí ele cria um segundo conceito, o ligado a fragilidade, pois nunca estamos preparados para a incerteza.

Assim, o antifrágil é aquele que é indiferente à incerteza, a imprevisibilidade dos eventos raros que atingem a qualquer um de nós. Nesse sentido, o antifrágil aceita não apenas a incerteza inerente aos eventos, ao cotidiano, a vida, a sociedade contemporânea, mas é capaz de sair fortalecido.

Taleb sem cair no reducionismo promove uma profunda reflexão filosófica sobre a incerteza, buscando estudar as infinitas variações do risco e do imprevisível, usando para isto instrumentos da filosofia, da economia, da estatística, da literatura, da matemática, da história e do mercado financeiro. Ele nos ajuda a entender melhor o complexo dispositivo que norteia a ação humana, demonstrando como é possível aperfeiçoar nossas decisões, em meio a um mundo que parece estar repleto de cisnes negros, tamanho os riscos e a incerteza no nosso cotidiano.

É preciso estar preparado para confrontar os fatos que podem mudar completamente as nossas vidas, tendo a capacidade de reconstruir, pois ser antifrágil é buscar sobreviver às escolhas, aos eventos aleatórios que nos sobrevêm, porque apesar das revoluções tecnológicas, dos avanços científicos, o peso da incerteza na vida é bastante significativo.

A obra de Taleb parece dialogar em certas passagens com o livro do economista Ludwig Von Mises, um dos fundadores da Escola Austríaca de Economia, que em sua obra Ação Humana, tem um capítulo intitulado A incerteza. Ambos os autores tratam do desenvolvimento da ação humana em um ambiente de incerteza, pois agir é um ato que se dirige a um futuro indeterminado.

Por causa disto, Mises escreveu em sua citada obra: “Se o homem pudesse conhecer o futuro, não teria que escolher e, portanto, não agiria. Seria um autômato reagindo aos estímulos, sem vontade própria”. Para eles, a certeza, caso exista, é apenas uma probabilidade de ocorrência entre tantas, e pode ter um resultado tanto negativo como positivo.

Em um trecho de Cisne Negro, Taleb demonstra sua entusiástica admiração pelo economista Friedrich Hayeck, e o conceito deste sobre ordem espontânea. Segundo Taleb, a ordem espontânea assegura que uma sociedade minimamente decente para qualquer cidadão que almeja desfrutar de sua liberdade precisa ser baseada por um sistema social orgânico, com instituições empíricas que atendam a realidade objetiva das pessoas. Nunca por meio de abstrações efetuadas em gabinetes ou por projetos políticos, como percebidos em países com Estados gigantescos, que elaboram um planejamento central, e colocam em prática ações ideológicas sem avaliar o impacto e o atendimento da realidade objetiva das pessoas.

Este pecado não é apenas cometido por nações que tentaram viver sob o peso de um Estado gigantesco, mas também por universidades, grandes corporações, órgãos de imprensa, empreendedores, intelectuais, e artistas, que por sua incapacidade de aceitar os riscos inerentes a todas as coisas, e de viver a incerteza de forma satisfatória, buscam através de ideologias, de abstrações, soluções para problemas complexos, como se a realidade pudesse se enquadrada em um viés ideológico, como se a vida, o cotidiano das pessoas pudesse obedecer às projeções de um grupo político ou corporação.

A sociedade precisa escolher o seu próprio rumo, dentro de uma ordem espontânea, pois as demandas reais precisam ser atendidas de modo satisfatório, levando em conta as especificidades envolvidas, e não a pureza das ideologias, a demagogia barata por meio da qual um populista de direita ou de esquerda se arvora como porta-voz do povo, de categorias, como se o indivíduo não existisse, como se os limites do orçamento público não fosse à barreira que impossibilita a concretude dos devaneios difundidos, e que na grande maioria das vezes ilude os incautos e os desinformados.

Quantos planos não tivemos para educação, segurança, saneamento básico, saúde e tantas outras questões que afetam as nossas vidas? Nada de concreto vem à tona, porque não foi algo produzido a partir da realidade objetiva, foi algo feito em gabinete sem sustentação no orçamento. Isso torna as pessoas frustradas, pessimistas, descrentes, porque o excesso de interferência do Estado e de grupos coletivistas causa muito ruído, e prejudica consideravelmente o rumo natural das coisas. É como se o Estado e os coletivos pudessem suprir a incerteza, os riscos inerentes a todas as coisas debaixo do sol, como se conduzir as nossas vidas pudesse apenas ocorrer a partir da chancela de terceiros.

Compreender o cisne negro não é uma questão de se precaver contra uma catástrofe ou colapso sistêmico, pois ninguém pode prever ao certo tais acontecimentos, nem na vida privada, muito menos em economia e no rumo de uma nação. Na verdade, trata-se de um problema epistemológico da vida: a ação humana. Por mais desconhecido que possa ser o futuro de onde ela surgirá, é a base de nossa própria liberdade, pois é a verdadeira ordem espontânea, pois o desconhecimento do que temos condições de realizar para nós e os nossos próximos, é a verdadeira questão. A empreitada humana envolve riscos, viver é atuar em um ambiente repleto de incerteza, e isto deve ser assumido como uma responsabilidade moral por nossos próprios atos, uma vez que fugir do risco e da incerteza não nos levará a lugar nenhum.

Em breve, a sociedade brasileira depositará nas urnas o que deseja para si.

O resultado da empreitada embora seja conhecido após a apuração eleitoral, não nos garantirá nada. O ambiente permanecerá incerto, com menor ou maior grau de previsibilidade, e fará com que os agentes econômicos movidos pelo medo e pela ambição (dois elementos propulsores do mercado financeiro) atuem em menor ou maior grau no sentido de vender ou comprar ativos brasileiros, pois no jargão do mercado, o preço corrige tudo.

Nós, teremos de nos adaptar, e se preparar para os cenários que possam ser desencadeados a partir da escolha da maioria. Devemos assumir os riscos e agir, mesmo em um ambiente de profunda incerteza política e econômica, porque agir é uma defesa intransigente de nossa liberdade, mesmo que o resultado da escolha da maioria aponte para uma catástrofe, ou seja, frontalmente contrário as nossas apreensões da realidade. Só esperamos que todos depositem o seu voto com a devida responsabilidade moral, sabendo que esta ação incerta produzirá efeitos negativos ou positivos em nossas vidas por muitos e muitos anos, pois o ato de votar produz consequências reais.

*Economista.

Elielson Lima 06 set 2018 - 9:19m

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