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Economia #Economia Mercado de trabalho: emprego e renda no Brasil

#Economia Mercado de trabalho: emprego e renda no Brasil


MERCADO DE TRABALHO: EMPREGO E RENDA NO BRASIL

              As recentes decisões do Governo Federal que manteve a tarifa para o setor de leite em pó, e a renovação dos subsídios para Zona Franca de Manaus deixaram-me bastante pessimista quanto ao futuro do mercado de trabalho no Brasil. Por uma premissa óbvia: achamos que podemos proteger empregos dando isenções fiscais. O fim é sempre o mesmo: picos sazonais de emprego, estagnação econômica por décadas, baixa renda, recessão, e taxa de desemprego elevada pela maior parte do tempo. 

              Em qualquer discussão que envolva economia sempre aparece a questão do emprego. A demagogia é sempre a mesma: precisamos proteger os empregos da indústria automobilística, dar recursos para os produtores de leite, manter subsídios para Zona Franca de Manaus, ter o BNDES. O problema é que ignoramos a complexidade da questão e seus temas interligados.

              Um cidadão mediano bem intencionado acha que o Estado deve tentar impedir demissões em determinado setor, pois com isso consegue frear o aumento da taxa de desemprego. Ledo engano. A intervenção estatal retira mais empregos no médio prazo, aumenta o desemprego futuro por causa das inúmeras ineficiências geradas na economia. 

              A economia quando é saudável funciona através da geração e destruição de empregos em um fluxo rápido, com o deslocamento de investimentos de um setor para o outro. Todavia, quando se impede que setores ineficientes sejam destruídos, isto resulta em uma distorção do fluxo que ajuda a destruir os empregos. Isso ocorre porque o capital alocado continua em uma atividade insustentável, impedindo que migre para outra atividade, gerando novos empregos. 

              A intervenção do Estado no leite em pó permite que as empresas do setor leiteiro não quebrem, mas que continuem com parco investimento em capital humano, baixa produtividade, uma vez que os empresários não precisam competir para enriquecer, pois os subsídios do governo garantem os lucros. 

              É verdade que sem a tarifa do leite as empresas iriam falir. Empregos seriam destruídos no curto prazo, mas em uma economia de mercado toda ineficiência é punida pela falência. Todavia, o capital, as máquinas, e os trabalhadores seriam realocados em outros setores. Exemplificando: o Governo Federal atuou para proteger 5 mil empregos, mas atrapalhou a geração de outros 10 mil empregos no restante da economia; sem contar os inúmeros outros empregos que seriam gerados a partir destes. Isto é corroborado por diversos estudos empíricos que tratam da questão do emprego. 

              Outro efeito direito da intervenção do Estado é que o consumidor paga por leite e seus derivados mais caro por causa da tarifa. Sem a tarifa, empresas produtivas cresceriam absorvendo parte da demanda e dos empregados das empresas que faliram. Além disto, empresas estrangeiras poderiam se instalar a fim de competir internamente, gerando mais empregos e menores preços. 

              Quando o governo impede o ciclo natural da economia, dinheiro que deveria ser investido em capital humano pelo Estado (segurança, saneamento, infraestrutura, educação e saúde) vai para o setor da industrial protegido. É mais fácil ir para Brasília pressionar o governo por proteção, do que gerar eficiência no chão das fábricas. Vejamos no gráfico 1 como são diferentes as coisas no mercado de trabalho americano, o mesmo acontece em todas as nações que são ricas:

Gráfico 1– Mercado de Trabalho Americano.

              No gráfico 1, sobre o mercado de trabalho americano é possível perceber  a dinâmica de geração de empregos, desemprego, e variação líquida de empregos de 2001 a 2018. É possível perceber que a destruição de empregos e criação de novos empregos mês a mês é praticamente o mesmo. Durante estes 17 anos, apenas em 2008 por causa da crise mundial houve mais desemprego que empregos. A economia americana tem criado em média 200 mil empregos líquidos por mês. Mensalmente, são destruídos entre 4 a 5 milhões de empregos, mesmo assim, o saldo é extremamente positivo. O país encontra-se em pleno emprego, a taxa de desemprego caiu de 10% em 2008 para 4%, e fechará 2019 com uma taxa em torno de 3,5%.  

              Esse dado demonstra o óbvio que nós não aprendemos no Brasil: o que aumenta o desemprego não é taxa de empregos que são destruídos mensalmente na economia, mas os empregos que deixaram de ser gerados. Então tirando a demagogia e colocando o senso comum de lado, surge a seguinte pergunta: o que impede a geração de novos empregos mensalmente na economia brasileira?        

              Inúmeros são os fatores que poderiam ser elencados como empecilhos para geração de empregos mensalmente na economia brasileira. Mas vou exemplificar apenas os três principais: intervenção do Estado na economia; má alocação de recursos; baixa produtividade. 

              A intervenção do Estado na economia foi abordada através do exemplo da intervenção no setor do leite. Mas vou acrescentar sucintamente alguns outros aspectos. A real business cycle theory (teoria dos ciclos econômicos reais) descreve que as interações em economia ocorrem de maneira espontânea e caótica, por meio de uma infinidade de atores e intenções. A economia se move em ciclos de destruição de emprego e geração de novos empregos, podendo ser regulada apenas pelo sistema de preço, que é impessoal e global.  

              Exemplo: se eu compro uma ação da AMBEV, não me importo quem está vendendo, há todo um mercado global de compra e venda. O meu interesse norteia a compra: quero especular no curto prazo e ganhar dinheiro com isso; possuí-la por longo prazo para ajudar na aposentadoria; ganhar dinheiro com os dividendos pagos anualmente. Eu, assim como inúmeras pessoas que têm ações da AMBEV são motivadas por suas intenções. Estas intenções podem resultar em lucro ou perda de dinheiro. O prêmio é apenas meu, assim como o possível prejuízo também.

              No mercado financeiro não há intervenção para proteger A de suas perdas, ou para mitigar os lucros de B. O lucro é o prêmio pela dedicação, time adequado e análise do investimento dentro dos horizontes estipulados. A perda do capital é a punição pela falta de conhecimento, timeequivocado, ou por seguir apenas o impulso da ambição, ou falsas promessas de dinheiro fácil. O capital circula livremente entre ganhadores e perdedores, funcionado no sentido de punir os ineficientes e premiar os que tiveram méritos.   

              O mesmo fenômeno ocorre na economia local. Quando uma padaria fecha, a demanda por pão na cidade se mantém constante. O capital da padaria que fechou mudou de mãos e será alocado em outro setor. A mão de obra irá trabalhar no mesmo setor ou em outro. Enquanto que a aquela padaria que não fechou irá absorver parte da demanda da padaria que fechou, gerando novas vagas de trabalho, aumentando sua produtividade para atender a demanda. O Estado não pode impedir que o consumidor de punir a padaria ineficiente. Se fizer isto, correrá o risco de não termos pão para toda demanda, pois o incentivo para se abrir novas padarias será baixo, uma vez que a padaria ineficiente se manteve no mercado por meio de subsídios, mesmo sendo incapaz de absorver toda demanda, resultando no aumento do pão e, também em sua escassez.  

              O segundo fator é o da má alocação de recursos. A proteção do Estado de empresas ineficientes, leva ao problema da alocação equivocada de recursos. Apesar da incapacidade histórica do Estado brasileiro na gestão, muitos acreditam ingenuamente que o Estado pode alocar melhor os recursos decidindo se uma firma vai produzir Y ou Z. O Estado não tem informação suficiente para dar conta das inúmeras interações realizadas na economia. Se o Estado intervém, há má alocação de recursos, pois o poder público não tem como aplicar bem o conceito de custo de oportunidade.

   O mercado é feito por milhões de indivíduos dispostos a poupar e investir, e possuem muito mais informação disponível na hora de escolher os setores mais lucrativos para expandir a produção do que qualquer burocrata bem intencionado do governo. Em todos os países do mundo a realidade é uma só: o setor privado é mais lucrativo e aloca o investimento melhor do que o poder público. No geral, a iniciativa privada tende a acertar muito mais na hora de alocar investimento, pois leva em conta as externalidades. 

   O burocrata bem intencionado (ou a equipe de burocratas), por mais inteligente que seja simplesmente não tem informação disponível para arbitrar a alocação de recursos em inúmeros setores, além das interações que ocorrem das mais variadas formas a todo instante. Quando o Estado tenta alocar recursos, ele distorce o sistema de preços, impactando a taxa de retorno, o planejamento das empresas, gerando uma série de ineficiências na economia que contribuem para impedir a geração de novos empregos. 

O terceiro fator que impede a geração de novos empregos todos os meses no Brasil é a baixa produtividade. Um trabalhador no setor industrial brasileiro produz hoje um pouquinho menos do que produzia em 1991. A produtividade industrial brasileira, medida pelo valor adicionado por trabalhador, está estagnada há décadas. Em comparação, um trabalhador no setor industrial sul coreano, que produzia menos do que um brasileiro em 1991, hoje produz quase três vezes mais. Isto pode ser verificado no gráfico 2 logo abaixo: 

              O Brasil se manteve praticamente estável de 1991 até 2017. Enquanto que a Coreia do Sul aumentou sua produtividade média de maneira exponencial. O maior problema brasileiro não é ter indústria pequena; é cada pessoa empregada na indústria estar produzindo, em média, cada vez menos em relação ao mundo que, ao contrário de nós, está avançando. Achar que o Brasil precisa ter indústria maior e apenas isso significa acreditar que tirar trabalhadores de outros setores para colocar em uma indústria cuja produtividade é baixa e não cresce tornaria o país mais rico. Isto não faz nenhum sentido. 

              A baixa produtividade impede a geração de novos empregos, porque não apenas gera ineficiências, mas é um empecilho a competição, a inovação, e ao dinamismo tecnológico, elementos essenciais para abertura de novos postos de trabalho. 

              Um país é rico quando a sua Produtividade Total dos Fatores (PTF) é elevada. A PTF pode ser explicada pelos seguintes fatores: infraestrutura, nível institucional, qualidade educacional, nível de competição, estabilidade econômica e política, e nível tecnológico. O conjunto da PTF indica as quantidades de capital físico e humano que são necessários para gerar produtos ou serviços; quanto maior for essa capacidade, maior será a atividade econômica e, consequentemente, a renda per capita.

              Não adianta o Estado proteger setores, ou criar ilusões para fazer reformas estruturais, utilizando a questão do emprego como se fosse uma moeda de troca: a reforma da previdência é essencial para o país não quebrar, mas não irá gerar emprego. reduzir impostos não irá resultar em novos postos de trabalhos; BNDES, Caixa Econômica, Banco do Brasil, Banco do Nordeste emprestando dinheiro, também não irá gerar emprego. As únicas coisas sem demagogia que irão gerar empregos são: retirar o Estado da economia, de modo que não interrompa o ciclo de destruição e criação de empregos; a devida alocação de recursos efetuada pela iniciativa privada; aumento da produtividade, que precisa de melhoria da educação, saúde, saneamento, e infraestrutura. 

              Por fim, cabe lembrar, que no Brasil quem paga os melhores salários na média é o serviço público. Isso não acontece em nenhum país rico do mundo. É fruto das distorções apontadas aqui. Apenas na Venezuela, Cuba, Coreia do Norte, Nigéria, Síria, Argentina, Angola, o funcionalismo tem os maiores salários. Em todos os países ricos, os melhores empregos e salários encontram-se na iniciativa privada. Essa distorção que ocorre aqui, explica também porque a renda no Brasil é tão baixa ao mesmo tempo em que é concentrada em determinados segmentos da alta classe média e elite. Mas isso é assunto para outro artigo. 

Fábio Almeida, economista. 

Elielson Lima 15 mar 2019 - 8:48m

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