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Economia #Economia Negligência com a matemática: um dos motivos da nossa pobreza e fracasso como sociedade

#Economia Negligência com a matemática: um dos motivos da nossa pobreza e fracasso como sociedade


Por Fábio Almeida*

Infelizmente virou lugar comum o pífio resultado dos alunos brasileiros nas provas de matemática no PISA. A negligência com a matemática destrói qualquer país, por mais promissor que este seja. País que a despreza está condenado a ter renda baixa, pouca tecnologia e nenhuma competitividade. É impossível gostar de matemática no Brasil, sem ter um pendor natural, pois a forma como é ensinada é estapafúrdia.

Os avanços científicos, biológicos, médicos e tecnológicos só foram alcançados por causa da matemática. Não haveria celular, remédios, redes sociais, inteligência artificial, robótica, genética, e tantas outras coisas. Até mesmo alta literatura foi criada a partir da matemática. Escritores como Jorge Luís Borges, Lewis Carroll, George Perec, David Foster Wallace, Thomas Pynchon, Nabokov, Ítalo Calvino, e o pernambucano Osman Lins escreveram inúmeros livros de ficção a partir do uso de conceitos e estruturas matemáticas.

Matemática nos ensina a raciocinar, e evita as ambiguidades inerentes a um texto escrito. Não pode em hipótese alguma ser lecionada por meio de decorebas de fórmulas, com tabelas de multiplicação ou coisas do tipo. Não pode ser ensinada na universidade apenas por meio de livros de cálculos, e métodos de derivação. É preciso despertar o amar pela matemática. Em seguida, saber aplicar a realidade.

Matemática é uma linguagem elegante, rigorosa, abstrata, que nos permite conhecer o universo. Para amá-la, é preciso conhecer sua história, e sua aplicabilidade no cotidiano. Bertrand Russel escreveu um livro magnífico em 1918, Introduction to mathematical philsophy, sobre como a matemática é construída. Esse livro me fez amar esta disciplina.

Outro livro que deveria ser obrigatório no ensino da matemática no Brasil seria o clássico escrito por Courant e Robbins em 1941 que é um dos mais belos e elegantes convites à matemática já escritos: What is Mathematics? An Elementary approach to ideas and Methods. Neste livro, há várias histórias, uma verdadeira viagem que começa pela teoria dos números, passando pela álgebra, geometria, topologia até chegar ao cálculo. Livro de nivelamento e referência eterna capaz de despertar o conhecimento e a devoção pela matemática.

Outra forma é desenvolver a história da matemática e de matemáticos em sala de aula. Há historias fantásticas como as de Gauss, Poincaré, Hilbert. Existem histórias saborosas, como a de Eratóstenes, um matemático grego, chefe da biblioteca de Alexandria, que em cerca de 200 AC usou a matemática para calcular a circunferência da terra. A medição foi bastante precisa, usando a geometria, e o sol, um verdadeiro feito histórico.

A geometria foi a primeira área da matemática a ser axiomatizada, tarefa realizada por Euclides, também em Alexandria em 300 AC. A geometria euclidiana ensinada na escola regular é aquela onde a curvatura do espaço é plana, ou seja, onde duas paralelas nunca se cruzam. Porém, existem outras geometrias onde a curvatura do espaço é negativa ou positiva; como exemplo, a curvatura do espaço não é plana, bem como a da superfície da Terra.

A beleza da conjectura matemática é a possibilidade de compreender coisas intangíveis, tais como a forma do universo, os átomos, a genética, e tantas outras coisas. Além disto, o que mais me fascina na matemática é que não há espaço para estupidez humana. Soluções de determinados problemas são buscadas por séculos. E, quando as soluções são encontradas produzem resultados satisfatórios que mudam os rumos da humanidade.

Tem-se como exemplo, o último teorema de Fermat que intrigou os matemáticos do mundo todo por 350 anos. Em 1637, Fermat alegou que provou que não existe n inteiro > 2 tal que a^n + b^n = c^n, mas a prova não caberia na margem do livro. Hoje sabemos que foi impossível que Fermat tenha provado, pois a matemática necessária para esta solução ainda não existia. Assim, para n=1 a solução é trivial, para n=2 é o teorema de Pitágoras. Fermat realmente conseguiu provar n=4. Mas para outros inteiros o problema era bem mais complexo e não havia sido criado instrumental para tal solução.

Apenas em 1995, o matemático britânico Andrew Wiles da Universidade de Princeton conseguiu resolver e provou o caso geral, o que foi responsável por criar novas áreas da matemática que contribuíram para alguns avanços recentes na ciência e tecnologia.  

A matemática sempre foi utilizada para resolver problemas concretos ao longo da história da humanidade. Por causa disto, todo mundo moderno foi pensado, e estruturado por modelos matemáticos. Parece que isto ainda não foi aprendido pelos governos brasileiros nem por muitos economistas, que se deixam guiar pela ideologia e não pelas evidências empíricas.

Em economia, aprendemos cálculo, estatística, probabilidade, econometria, e modelos de equilíbrio geral na microeconomia e macroeconomia, utilizando para isto alguns modelos neoclássicos. Em seguida, professores revelam total desprezo pela evidência empírica, e partem para desenvolver uma teoria alternativa que pode ser da escola austríaca, marxismo, keneysianismo, shumpeterianismo, estruturalismo, desenvolvimentismo, entre outras.

Os cursos são centrados na propagação de uma ideologia ou narrativa produzida por determinada escola do pensamento econômico. Parte-se para o campo da retórica, ignorando os avanços da ciência econômica produzidos nos anos 1950 e 1970, que criou uma nova base metodológica e instrumental para economia.

A partir dos anos 1950 não há mais espaços para narrativas, pois tudo tem de ser testado empiricamente. Não há validade para argumentos de autoridade, como Keynes quis dizer isso, Mises falou aquilo, Marx defendeu isso. Estes e outros são apenas clássicos do pensamento econômico, apesar de suas contribuições para teoria econômica em seu tempo, são totalmente irrelevantes atualmente.

A atual metodologia de pesquisa não deixa mais espaço para crenças, ideologias e narrativas. Não se explica mais eventos a partir de suposições, ou de palavras bonitas que quando são espremidas não dizem nada. A economia que contava uma história morreu. Não importa o que disse o intelectual A ou B, é necessário ter dados empíricos para comprovar a viabilidade de determinado resultado, pressuposto ou teoria.

A escola neoclássica (a ortodoxia) em economia diverge das heterodoxias que ignoram matemática, e levam para o ensino e para o governo as idiossincrasias da ideologia. É preciso estudar muito para adquirir o instrumental básico para poder efetuar análises econômicas. É necessário conhecer cálculo multivariado, álgebra linear, estatística, econometria, probabilidade, modelos dinâmicos, analisar série de dados, e isto implica muito trabalho.

É mais fácil para os economistas heterodoxos seguirem narrativas ideológicas e tecerem críticas, soluções mágicas para problemas complexos. De maneira geral, dentro da escola neoclássica existem diferentes correntes de macro que discordam de hipóteses e prescrições de politica. Mas tem em comum o uso do método. Em microeconomia (que é o que interessa) são homogêneos. A falta de matemática faz com que muitos economistas defendam verdadeiros absurdos.

Ruim é quando economistas ideológicos chegam ao poder junto com governos supostamente ideológicos. Os resultados são medidas equivocadas que custam caro ao país. Isso ocorre na suposta direita e na suposta esquerda. Lula/Dilma/Mantega efetuaram uma das maiores intervenções do Estado na economia, assim como fizeram Getúlio Vargas, e os Governos Militares. Pressuposto: o Estado deve investir pra gerar empregos e renda, escolhendo setores da economia. Ideologia: nacionalistas, desenvolvimentistas e a suposta esquerda. Ação: o BNDES emprestou 1 trilhão de reais para empresários de diversos setores. Resultado: desequilíbrios econômicos, recessão, endividamento do país, e o maior desemprego da história. Se não fossem guiados por ideologia iriam testar hipóteses, vê como essa ação se comportaria em modelos matemáticos. Além disto, deveriam ter buscado o que diz as evidências e testes empíricos sobre o assunto. E, os dados são bastante claros: o Estado não pode ser indutor do crescimento, pois gera distorções, terminando sempre em recessão.

Bolsonaro/Guedes enviaram uma proposta de capitalização da previdência para o Congresso. Sabiamente retirada pelo relator na comissão especial da Câmara. Pressuposto: o sistema de capitalização não tem déficit. Ideologia: liberalismo. Ação: Guedes ficou bravo com o congresso por ter retirado a capitalização do texto.

Parece que Paulo Guedes não sabe fazer contas, a capitalização da previdência tem um custo de R$ 3 trilhões, como uma reforma que tinha como meta economizar R$ 1 trilhão em dez anos poderia ter capitalização? Uma aberração aritmética. Outra: o que diz as evidências? Quantos países tem o regime de capitalização da previdência? Apenas um, o Chile, com problemas em seu sistema. Seria viável este regime no Brasil? Qual o seu impacto?

Estas perguntas não foram respondidas por Guedes porque ele não fez nenhum estudo nem testou as hipóteses em um modelo matemático. A resposta é óbvia: este modelo é impossível de ser aplicado em um país do tamanho do Brasil e com um grave problema estrutural no atual modelo previdenciário. Cego pela ideologia, Guedes não enxergou o óbvio. Graças ao Congresso Nacional essa ideia estapafúrdia foi retirada do texto, porque uma vez aprovada, teria um resultado catastrófico para o país.

Por fim, farei uma sucinta avaliação acerca das armas no Brasil. O atual governo defende a facilitação do acesso às armas pelos cidadãos como uma resposta a violência. Pressuposto: com armas o cidadão tem como se defender dos bandidos. Ideologia: conservadorismo, liberalismo. Ação: decreto de armas. Aqui, um exemplo de como a ideologia e a ignorância quando colocadas no governo podem ter resultados catastróficos.

Eu sou um liberal, em tese deveria apoiar o direito dos cidadãos comprarem armas no Brasil. Mas sou contra, porque não posso brigar com realidade e com a evidência empírica. No nosso país, o crime organizado tem maior poder de fogo. Com mais armas em circulação, este poder tende a aumentar, porque o crime organizado ao invés de comprar um fuzil por R$ 150 mil reais, compraria o mesmo fuzil por R$100 mil reais. Com R$ 300 mil compraria três fuzis, não dois. Lei da oferta e procura ignorada por todos que defendem essa solução.

Vamos ao combate das falácias. Primeira falácia: país armado é mais seguro. Não é que demostram os dados. Os EUA é seguro. De fato, os EUA é seguro quando comparado ao Brasil, China, Rússia. Mas, os EUA não podem ser comparados a estes países, mas com países com mesmo nível de renda e infraestrutura. Os americanos precisam ser comparados com Inglaterra, Alemanha e Japão.

A taxa de homicídios da Alemanha é de 0,85, da Inglaterra é de 0,92, e do Japão é de 0,31. Enquanto a dos EUA é de 4,88. Inglaterra, Alemanha e Japão são países desarmados, com severas restrições a compras de armas. Os EUA tem excesso de armas, sendo muito mais violento que estes três países juntos.

Outra falácia: população armada se insurge contra um governo que quer virar ditadura. O que diz a evidência: é falso. O que faz um governo não virar ditadura são instituições sólidas. Cuba, Venezuela são países armados, e são ditaduras. Rússia, Turquia são países armados, e têm regimes autoritários que não podem ser considerados democracias. População armada não impede ditadura, porque o poder de fogo do Estado é maior do que a da sociedade civil.

Quando se ignora matemática o país não perde apenas em competividade, tecnologia, emprego e renda. Escrutina-se durante o pleito eleitoral guiado pela emoção, ouvindo argumentos retóricos, ideologias e histórias de vidas pessoais, como se fossem essenciais para governar. Perde-se também senso crítico na aferição das medidas governamentais.

A sociedade brasileira precisa deixar de votar e defender políticos e governos por causa de ideologia e simpatia pessoal. Precisa avaliar se as propostas, os discursos têm fundamentos na realidade e são factíveis, e quais países o adotam com sucesso. Necessita urgentemente deixar de votar com as emoções, e votar com a cabeça de planilha, e o coração de calculadora. Será a única forma de salvarmos nosso país do precipício.

 *Economista

Elielson Lima 20 jun 2019 - 16:16m

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