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Economia Economia| O preço geralmente está errado

Economia| O preço geralmente está errado


Por Fábio Almeida*

Existe um debate acirrado sobre o que é mais importante: preço ou valor. O preço é irrelevante, pois geralmente está errado. Quanto ao valor, este pode ser destruído por momentos de instabilidade, não conseguindo voltar à média histórica. O mercado é pródigo em exemplos de ativos que foram solapados no tempo.  

              Isto acontece, em parte, porque ignoramos a sabedoria existente na psicologia. Assim, os modelos utilizados em economia não incorporam as peculiaridades do ser humano. Como se a história não fosse movida por medo, ambição, desejos e utopias. 

              A economia foi construída a partir de premissas centrais, como acontece na física. A disciplina passou por uma espécie de revolução depois da segunda guerra mundial liderada por Hicks, Samuelson e Arrow, que aceleram a tendência de empregar maior formalidade matemática a teoria econômica. Isso matou a economia construída a base de narrativas e ideologias (infelizmente não no Brasil). 

   Os modelos iniciais eram baseados em uma premissa: o ser humano é racional e, por isto, os agentes otimizam, levando os mercados a atingir o equilíbrio geral.  Essa premissa está absolutamente errada. Isso porque a otimização ignora a psicologia, como se os seres humanos fossem autômatos. 

   À medida que avança a ciência econômica, os modelos dinâmicos foram sendo criados, e o equilíbrio do mercado é colocado em questão. Apesar disto, vários modelos continuam ignorando as contribuições da psicologia para economia, produzindo pífias análises preditivas. 

   O preço geralmente está errado porque ignora os fatores subjetivos. Além disto, diversos estudos demonstram que é impossível aprender algo sobre o mundo real baseando-se apenas em modelos de otimização. É necessário testar modelos que possam se encaixar nas questões reais da vida humana. 

   A existência de modelos formais baseados na concepção errônea do comportamento humano tem levado a equívocos diversos na seara da economia, com impactos negativos em todas as áreas. Quando uma política pública é baseada em um modelo de otimização ou em ideologia, o resultado será ruim porque ignora a realidade. 

              Nesse contexto, os avanços da economia comportamental não apenas têm contribuído para criação de modelos matemáticos mais realísticos, como também tem produzido humildade entre os economistas. 

              Um dos percursores da economia comportamental é o erudito Herbert Simon que teve inúmeras pesquisas em todos os campos das ciências sociais, mas sua maior contribuição foi o estudo acerca da racionalidade limitada do ser humano. Neste estudo seminal ele conseguiu demonstrar que as pessoas tem racionalidade limitada por causa da carência da capacidade cognitiva para resolver problemas complexos, o que é uma verdade comprovada pela neurociência. 

              Quando se ignora esta obviedade científica, os modelos econômicos são imprecisos, distorcem o sistema de preço, e os resultados são catastróficos. Bravatas como o preço desconta tudo, não resolvem o problema. Por causa disto, a economia comportamental concebe o homem como um ser de racionalidade limitada, que age por impulso, não otimizando todo o tempo. 

   O ser humano pensa na vida em termos de mudanças, não em estados de racionalidade. Podem ser mudanças no status quo, na carreira, no relacionamento, mudanças em relação ao que era esperado, e, independente da forma que as assumam, as pessoas ficam felizes ou tristes não apenas porque acharam os resultados bons ou ruins, mas porque a subjetividade muitas vezes norteiam as reações. Isto tem impacto significativo não apenas na vida individual, mais no sistema econômico. 

   Outro exemplo da distorção dos preços por motivos psicológicos é a aversão inerente das pessoas ao risco. As pessoas são avessas ao risco na procura por ganhos, mas buscarão o risco para tentar evitar perdas. Isto faz com que muitos quebrem no mercado financeiro, por não saberem perder pouco. Como diz a blague no mercado financeiro: o trader iniciante é medroso em posições vencedoras, e corajoso em posições perdedoras. 

   Diversos achados demonstram que o ser humano está pronto a assumir o risco de perder mais para ter a chance de não perder nada. Sendo covarde no sentido de aumentar o risco para ganhar mais. Isso ocorre porque a dor da perda é muito maior do que a satisfação do ganho equivalente. Desta premissa nasceu um dos princípios fundamentais da economia comportamental: a reação das pessoas a perda é diferente da reação aos ganhos. Qualquer estudo, ou modelo matemático que ignore isto, terá resultados irreais.

   Outra questão sumamente importante levantada não apenas pela economia comportamental, mas por Adam Smith em seu grande livro A Teoria dos Sentimentos Morais, é que o prazer do que poderemos desfrutar daqui a 10 anos não nos interessa quando comparado com o que podemos desfrutar hoje. Ele reconhece que é preciso força de vontade para lidar com isso, pois a preferencia por consumo presente sobre consumo futuro diminui com o tempo. 

   A falta de força de vontade em priorizar o relevante faz com que pessoas de baixa renda comprem um Iphone que em três anos estará desvalorizado em 70% do seu valor, ao invés de determinadas ações, que no mesmo período poderá está valendo 200% a mais, dando-lhe dinheiro para comprar não apenas um, mas vários Iphones. Adam Smith tinha exata consciência acerca da batalha entre as nossas paixões. 

   Os modelos matemáticos podem até explicar o que uma pessoa racional deveria fazer (não comprar o Iphone, mas investir), mas a realidade é bem diferente. Subjetividade, formação, renda, cultura, conhecimento, norteiam inúmeras de nossas escolhas. Ignorar isto é produzir modelos matemáticos fracassados. 

   Irving Fischer em seu clássico Teoria dos juros demostrou que as pessoas com renda elevada são mais pacientes em suas preferencias temporais do que as pessoas de baixa renda. Isto tem impacto significativo nos processos decisórios, na produtividade, nos investimentos, pois devido ao contexto o pobre espera resultados mais rápidos, enquanto as pessoas bem sucedidas não tem pressa, pois sabem que rentabilidade alta é uma equação feita por juros x tempo. 

   Além disto, é evidente que as pessoas descontam do futuro taxas que variam com o tempo, então pode ser que os indivíduos não se comportem de maneira consistente, pois podem mudar de ideia à medida que o tempo passa. Assim, modelos matemáticos com o de utilidade descontada são inúteis, porque ignoram completamente a psicologia, as mudanças de humor, os ciclos da vida. 

   Outro ponto verificado pela economia comportamental sobre investimentos é que as pessoas que olham com mais frequência seu portfólio tendem a perder mais dinheiro, estando menos dispostas a assumir riscos, porque ao olhar com mais frequência irão identificar mais perdas. Assim, quando há determinada oscilação sazonal, as pessoas tiram o dinheiro do fundo ou vendem o ativo que dispõem, realizando um prejuízo. Esse viés comportamental prejudica o desempenho do investidor. 

   Flutuações diárias nos lucros e perdas de investimentos são absolutamente efêmeros, mas muitos não entendem assim por questão psicológica. Isto cria uma importância excessiva e absurda não apenas na vida do investidor, mas no próprio mercado, fazendo com que o preço esteja geralmente errado, já que em um mercado eficiente não haveria mudanças fora do desvio padrão.  

   Por causa disto, o mercado financeiro é volátil, pois a racionalidade é limitada, e o mercado não reage apenas às notícias. Movimentos especulativos, ou um simples humor de algum grande player é capaz de movimentar o mercado, fazendo com que o preço oscile erroneamente sem nenhum motivo ou fundamento. Um exemplo clássico é o dia 19 de outubro de 1987 que ficou conhecido como a segunda feira negra, onde o mercado caiu 8,3% sem nenhum motivo. 

   O preço geralmente está errado porque o mercado sempre diverge de suas tendências históricas e acaba revertendo à média. Assim, quando os preços divergem fortemente de níveis históricos, em, qualquer direção, existe um valor preditivo nesses sinais. E, quanto maior a divergência dos preços em relação aos níveis históricos, mais estes sinais precisam ser levados a sério. 

   Algumas vezes, o preço está muito errado, divergindo da realidade, e dos fundamentos das empresas, da economia real, corrigindo forte até voltarem às médias, acabando com a ilusão das pessoas que agem como se o mercado fosse subir infinitamente. Como se a economia real fosse crescer indefinidamente, como se não existisse limites econômicos e físicos do planeta.  

   A psicologia tem muita sabedoria a oferecer não apenas a ciência econômica, mas a todas as ciências sociais. Cabendo a nós, economistas, em nossos modelos matemáticos, e análises preditivas, levar em conta a racionalidade limitada, a força de vontade limitada, e o interesse próprio limitado. 

   Assim, poderemos inserir no nosso instrumental o que foi capitado pelo grande economista Vilfredo Pareto em 1906: “o alicerce da economia política e, em geral, de toda ciência social é, evidentemente, a psicologia. Pode chegar o dia em que seremos capazes de deduzir as leis da ciência social a partir dos princípios da psicologia”. 

Nesse sentido, a teoria comportamental é seminal para uma teoria econômica baseada em evidencias, e também para diversos aspectos da vida humana em todas as áreas. Para os leitores se iniciarem neste campo, indico três livros traduzidos para o português: Rápido e Devagar – duas formas de pensar de Daniel Kahneman; Misbehaving – a construção da economia comportamental de Richard H. Thaler; e O Espírito Animal – como a psicologia humana impulsiona a economia e a sua importância para o capitalismo global de George A. Akerlof e Robert J. Shiller.

*Economista. 

Elielson Lima 16 ago 2019 - 19:09m

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