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Economia Economia | Crescimento econômico e indústria

Economia | Crescimento econômico e indústria

Publicado em: 14/11/2019 - 23:04m

​Um dos maiores desafios na economia é criar equilíbrios perfeitos. Equilíbrios perfeitos implicam na funcionalidade global de uma economia através de um sistema de preço livre, transparente e dinâmico. Para isto é preciso acabar com a ideologia na análise econômica. Uma das áreas que existe mais mitos é a do crescimento econômico.

​Um dos mitos mais difundidos é que precisamos acelerar nosso crescimento para sermos ricos. Nenhum país rico no mundo teve um crescimento econômico acelerado. Não adianta ter milagres econômicos como os do Brasil, gerando uma série de distorções na economia.  A título de exemplo, podemos analisar o crescimento da economia americana no gráfico 1, logo abaixo.

​A taxa de crescimento do PIB per capita americano se manteve quase constante ao longo do tempo como pode ser visto no Gráfico 1. Do século XIX até a grande depressão, a renda por habitante aumentava em média 1,5% ao ano. Já durante o período do pós-guerra, a média de aumento foi de 2,2% ao ano. 

​A economia americana cresceu devagar, só que de maneira constante, com uma integração entre aumento da produtividade, competitividade e renda. É a produtividade que gera riqueza, não crescimento econômico acelerado. Existem inúmeras evidencias a este respeito, mas parece que muitos economistas brasileiros, e os arcaicos setores da indústria ainda não aprenderam. 

Outro mito é que o Estado precisa ser o indutor do crescimento. Não é função do Estado atuar na promoção do crescimento econômico, pois suafunção é atender aos mais pobres, regular o mercado, e desenvolver um ambiente saudável a atividade econômica. Nosso Estado ao longo dos anos deu empréstimos, protegeu setores, fechou economia, favoreceu determinados grupos industriais, e nós não ficamos ricos nem tivemos aumento da produtividade.

Apesar do fracasso, continuamos a insistir no erro, ainda temos Zona Franca de Manaus, proteção e subsídios, e uma série de empresas estatais que não tem serventia alguma, pois servem apenas aos seus funcionários e aos políticos. 

Quando se faz política industrial, geralmente se esquece dos custos de oportunidade. Quando restringimos a importação de carros estrangeiros, por exemplo, aumentamos a produção interna e criamos empregos no setor automobilístico. O problema é que agora as pessoas terão que comprar carros nacionais mais caros (sim, mais caros; caso fossem competitivos não precisariam de proteção pra ganhar mercado) sobrando menos renda pra consumir com todo o resto. A consequência pouco observável é a perda – ou menor ganho – de emprego e renda em todos os demais setores.

No médio prazo, vem o desemprego, e a quebradeira do setor protegido por não ter condições de competir devido à baixa produtividade, ineficiência, e o atraso tecnológico em relação aos seus pares internacionais. O segundo efeito pouco óbvio à primeira vista vem do câmbio: importamos carros em dólar e compramos carros nacionais em real. Pra converter uma coisa pela outra precisamos trocar as moedas no mercado de câmbio. No exemplo dado, a partir do momento em que se impõe uma barreira a importação, reduz-se a demanda interna por dólar e a oferta de real. 

As pessoas estarão trocando menos moeda nacional por estrangeira pra importar carro, correto? Essa interação entre oferta e demanda monetária irá valorizar o real em relação ao dólar, e isso por sua vez irá prejudicar todos os setores exportadores, que perderão empregos e escala.

Pensemos um pouco e vejamos o quanto é óbvio: nós não pegamos moeda estrangeira pra queimar. Usamos essas divisas para adquirir bens e serviços do exterior. É de se esperar que, de alguma forma, ao dificultar-se a saída de divisas, também prejudiquemos a entrada. Ou alguém espera que surpreendentemente os dólares comecem a se acumular aqui dentro em pilhas continuamente por causa de uma tarifa? Como isso aconteceria e com que finalidade os agentes agiriam assim?

Fica claro que o efeito líquido de emprego e renda de qualquer medida protecionista precisa ser avaliado tanto em ganhos para o setor protegido quanto em perda para todos os outros – incluindo as famílias que agora terão que desembolsar maisdinheiro por produtos de pior qualidade. 

Esse efeito líquido sempre é negativo por 2 motivos: primeiro, protegemos, por definição, setores menos eficientes que os estrangeiros, o que reduz a eficiência média da economia. Além disso, o colateral é a perda de empregos nos setores até então exportadores, os quais já eram capazes de competir a nível global. Trocamos empregos mais produtivos por empregos menos produtivos. 

Segundo, ao dificultar-se a entrada de bens estrangeiros, tornamos a concorrência mais nacional e menos global. Setores menos concorrentes são, ninguém ousaria negar, menos eficientes. Tragicamente, os ganhos locais são bem visíveis e as perdas gerais muito diluídas. A tendência é que cada grupo de interesse que representa um setor tente puxar a sardinha pro seu lado, num frenesi sem fim em que todo mundo tenta ganhar às custas de todo mundo. O resultado é o país inteiro mergulhado em burocracia e ineficiência – como foi na década de 80 e ainda é, mas em menor escala, atualmente.

Outro ponto que merece ser ressaltado é que a vantagem absoluta nos setores da indústria não importa para determinar quem vai produzir e vender quais mercadorias no comércio global. O que determina isso é a vantagem comparativa, conhecida desde o século XIX e publicada por David Ricardo.

A antiga teoria das vantagens comparativas foi reformulada e confirmada sob os parâmetros neoclássicos com o modelo de equilíbrio geral Heckscher-Ohlin na década de 70, rendendo um Nobel aos seus criadores.

Ou seja, não adianta proteger, por exemplo, o nosso setor farmacêutico, quem for competitivo com qualidade e preço vai liderar o comércio global, e vender tanto em seu país quanto nos outros. No Brasil, 80% da química fina da indústria farmacêutica vêm do exterior, e proteção não irá mudar essa realidade, pois não se tem tecnologia, expertise e condições de competir neste segmento. 

Muita gente acha que o problema da nossa indústria é capacidade ociosa ou simplesmente seutamanho. Teríamos que colocar gente pra trabalhar nela, aumentando o tamanho a qualquer custo. O problema é que enquanto o setor industrial estiver com a produtividade esganada em relação ao restante da economia, uma expansão no emprego industrial tende a diminuir o rendimento médio da mão-de-obra no setor (rendimento decrescente de escala) e, portanto, no país, nos empobrecendo. 

Hoje, os países pobres e de renda média conseguem facilmente ter vantagem comparativa na indústria manufatureira por causa de um ponto bem simples: salários. Os países ricos são relativamente abundantes em capital e escassos em mão de obra, ou seja, salários altos. Os países pobres são o oposto: abundantes em mão de obra e escassos em capitais, ou seja, salários baixos. A tendência em uma situação de livre fluxo de mercadorias e capitais é que as empresas dos países ricos migrem para os países pobres para aproveitar os baixos salários e o alto retorno ao capital investido. No longo prazo, o que observamos é uma equalização dos fatores de produção entre os países, aproximando os pobres dos ricos em termos de renda.

É óbvio que aos países pobres não basta ter baixos salários. Construir uma economia saudável, com inflação e dívida controladas, é fundamental. Também é necessário ter um ambiente de negócios decente, que seja pró-concorrência, pró-abertura e pró-investimento, assim como melhorar os indicadores educacionais.

A única questão relevante é: Como tornar a indústria brasileira mais produtiva? Como fazer a hora trabalhada do operário industrial produzir mais em valor? Se queremos realmente uma indústria competitiva a nível internacional, deveríamos estar nos debruçando sobre isso.

É óbvio que o mercado tem falhas que precisam ser mitigadas pela sociedade. O mercado não pode ser vendido como uma panaceia destinada a resolver todos os problemas da sociedade, pois só um sistema de equality of oportunity (igualdade de oportunidades), pode combater a pobreza e garantir níveis vida decente a todos os cidadãos. 

​O equality of oportunity de um país precisa garantir educação básica gratuita de qualidade para todos, ter um ensino superior que favoreça a tecnologia e a inovação, redução dos níveis da burocracia, segurança, saneamento básico, saúde de qualidade para os mais pobres, e atenuação das desigualdades por meio de seguros contra acidentes de trabalho e desemprego, disseminando a cultura do respeito à propriedade privada e ao empreendedorismo.

​O Estado em uma economia de mercado, com uma sociedade livre e democrática precisa situar-se em suas atribuições primordiais. Deve ser voltado para atender aos mais pobres, para investir em ciência e tecnologia, atuando na promoção de práticas esportivas e culturais, na educação, saúde, infraestrutura, saneamento básico, segurança pública, segurança das fronteiras, na elaboração de marcos regulatórios, e no desencadeamento de ações que promovam o aumento da produtividade total dos fatores, o desenvolvimento do comércio internacional, e a melhoria no ambiente de negócios. 

​Precisamos nos livrar dos mitos do crescimento econômico acelerado, do Estado indutor do crescimento. Precisamos é se concentrar em gerar igualdade de oportunidades, voltando sua atenção para os mais pobres. E, o principal: aumento da produtividade. Sem produtividade, não há riqueza. Só o aumento da produtividade irá salvar o Brasil de adentrar em mais uma década perdida. 

Fábio Almeida, 

Economista.

Elielson Lima 14 nov 2019 - 23:04m

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