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Economia Economia | O que está acontecendo com o dólar?

Economia | O que está acontecendo com o dólar?


​A alta do dólar é o assunto do momento. Quando algo tão complexo entra nas discussões políticas, geralmente, o que se produz são bobagens. Sempre foi assim quando se trata do câmbio. Se o dólar aumenta, a culpa é exclusiva do governo. Se o dólar cai, é virtude exclusiva do governo. Dólar é um cabo de guerra entre governo x oposição. 

Mas não é só nas discussões políticas, aimprensa fala muitas bobagens sobre o dólar. Atribuem sua oscilação de preços a eventos políticos, falas de membros do governo, entre outros. 

Pior ainda são as previsões de economistas. Se alguém pegar os jornais do início do ano, irá ver que todos asseguravam o dólar estaria na faixa dos R$ 3,50. Ignoram o sábio conselho do economista Edmar Bacha: o câmbio foi inventado por Deus para humilhar os economistas. Nunca se sabe para onde ele vai. 

​Câmbio é algo essencial. Não está restrito ao universo dos economistas, especificamente, na discussão sobre o suposto mbio ideal; mas também na vida das pessoas, pois o aumento do dólar impacta na inflação, bem como na percepção dos investidores.

A taxa de câmbio é uma conta de ajuste, pois se trata de um preço que equilibra os demais preços essenciais na economia. Diz respeito ao poder real de compra da moeda. 

​A desvalorização cambial (perda do valor do Real frente ao Dólar) resulta em destruição da renda e, consequentemente, elevação do custo de vida, pois o combustível ficará mais caro, a luz elétrica, carne bovina, medicamentos, dentre outros. Na figura 1, logo abaixo, temos a evolução do dólar de 2014 até 2018, o que demonstra que a alta é algo estrutural, não conjuntural.

Conforme pode ser verificado na figura 1, a taxa de câmbio vem aumentando de maneira consistente desde 2014, com uma nítida evolução no ano de 2018. Explicada em parte, pela valorização do dólar frente a todas as moedas e, também devido aos problemas estruturais e macroeconômicos da economia brasileira. Mas isso é apenas parte da explicação.

​É bem verdade que o cenário internacional impacta no preço do dólar aqui. É verdade também que há uma forte correlação entre o dólar e o DXY (índice da cesta de moedas comparadas com o dólar), conforme pode ser vista na figura 2, logo abaixo. Todavia, esta correlação ao longo deste ano foi de cerca de 26%. Ou seja, numa conta simplificada, o impacto da conjuntura internacional no atual preço do dólar foi menor que 30%.

​Com um nível de correlação abaixo de 30% com o DXY cai por terra o discurso que apregoa que a desvalorização do Real é fruto do exterior. Para deixar esse argumento ainda mais robusto, comparemos o dólar com o ELMI (índice da cesta de moedas dos países emergentes): deu Alfa negativo, apesar da elevada correlação entre Dólar/ELMI que ficou em 57%. Traduzindo para o leitor: o Real se desvalorizou frente ao dólar muito mais do que as moedas de países comparáveis ao Brasil, demonstrando ser algo mais interno, conforme resultado exposto na figura 3.

​É sabido que os bancos centrais do mundo se encontram no ciclo de corte de juros, o que aponta para um processo global de juros negativos, e inflação baixa. Isso também mudou no Brasil, temos a menor taxa de juros da história. O Risco-Brasil (CDS) caiu para 123 pontos. O país dispõe de 380 bilhões de dólares em reservas internacionais. Então por que o dólar continua alto?

​Muitos interpretam o dólar como métrica de qualidade do governo. Não é. Óbvio que políticas econômicas influenciam no câmbio, mas tais políticas são apenas uma parte do todo no sentido do impacto na formação de preço do dólar.

​Outros percebem o dólar como elemento dedimensão de risco. Isso é apenas uma parte diminuta, embora as expectativas sejam relevantesem economia, não fazem de forma significativa o preço do dólar. Interfere no curto prazo, sendo apenas volatilidade.

​O dólar não está ligado apenas a qualidade do governo, nem as expectativas de risco, mas a estrutura da economia em geral, refletida pela: composição de gasto público; questão fiscal;métricas de atuação do Banco Central; câmbio flutuante; comércio internacional; contas externas do país; fluxo de investimento estrangeiro; liquidez interna do dólar. 

​A balança comercial em novembro teve um déficit de US$ 1,09 bilhões de dólares, e isto tem impacto no preço do dólar. O investimento estrangeiro aguardado não veio e, ao que tudo indicada não virá, sem reformas estruturais. Já os estrangeiros que ainda detém investimentos aqui tem reduzido o volume afetando o dólar.  Somando-se a isto, a conta corrente do Brasil veio bem pior do que o esperado, conforme pode ser visto na figura 4 logo abaixo:

​A atual forma de intervenção do Banco Central no dólar tem contribuído para própria alta. A atual diretoria fez 5 leilões esta semana, e apesar das raquetadas (gíria do mercado) o dólar não cedeu. Acredito, que torrar bilhões de Reais de nossas reservas de maneira telegrafada, não seja o mais promissor. 

Os especuladores sabem que o Banco Central vai intervir e vão testando os limites do dólar. Banco Central vende bilhões de dólares em leilão, o preço caí, e; logo em seguida, os especuladores começam a comprar, elevando os preços novamente. Todo mundo no mercado já sabe que o Banco Central na faixa perto dos 4,30 intervém. Esse dinâmica tem ocorrido ao longo deste ano. 

Como opero mercado de dólar futuro a três anos, já vi diversas formas de raquetadas a fim dereduzir o preço do dólar com mais eficácia, principalmente, durante a gestão de Ilan Goldfajn no Banco Central. 

Outro ponto que merece ser destacado: muitos questionam o fato de o Banco Central torrar bilhões das reservas internacionais do país para segurar o dólar. Devolvo com outra pergunta: o que fazer? Se não intervir o dólar passaria dos R$ 6,00 fácil, com graves implicações na vida da população, pressionando a inflação, trazendo uma grave crise para o país. A solução seria: mudar a dinâmica da intervenção. 

Isto passaria por uma mudança sensível de como os leilões são conduzidos pelo Banco Central, tanto no sentido de não perder o controle sobre o câmbio, como também no sentido de reduzir a voracidade do grande especulador. 

Por que não criar uma média móvel dinâmica, com uma banda superior e inferior, onde o banco central deixaria o câmbio flutuar dentro das bandas, que refletiriam uma região de preço de equilíbrio?

No caso, quando o dólar sair abaixo da banda, o Banco Central interviria no mercado comprando dólar; no caso de ultrapassar a banda superior, interviria vendendo dólar, em leilões surpresas e com força para fazer o especulador sentir medo. 

Por fim, cabe destacar o principal: o Real está em franco processo de desvalorização desde 2002. O pico da desvalorização foi em 2002, cerca de 60% abaixo do valor atual. Enquanto que o Real mais forte foi no ano de 2011, cerca de 30% acima do valor de hoje. Conforme pode ser visto na figura 5 logo abaixo:

Figura 5 – Real frente ao Dólar de 1995-2019.

É inegável o processo de desvalorização do Real ao longo do tempo, e isto é refletido diretamente no poder de compra da sociedade. Não precisa ser economista para saber que o que se comprava a 10 anos com R$ 100,00 não se compra atualmente. Esse problema precisa ser avaliado de maneira mais ampla, requer estudos sobre a estrutura deste processo. 

Embora haja uma correlação entre o que acontece no mundo e o preço do dólar, a valorização desta moeda tem muito mais elementos internos e estruturais na composição do seu preço do que supõem as análises apressadas da imprensa, das redes sociais e da discussão política. 

Tenho plena noção da complexidade do câmbio, e das dificuldades para efetuar mudanças. Mas é evidente que o sistema de intervenção do Banco Central precisa ser alterado. Além disto, as métricas e o modelo de câmbio flutuante precisa ser reavaliado e, quem sabe, transformado em um novo modelo, que poderia ser hibrido (Câmbio Fixo/Câmbio Flutuante) a fim de dar respostas mais efetivas as especificidades estruturais, mudanças de fluxo cambial, e cenários macroeconômicos.

Fábio Almeida,

Economista.

Elielson Lima 28 nov 2019 - 14:08m

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