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Opinião O aborto como um capital político, por Alex Ribeiro

O aborto como um capital político, por Alex Ribeiro


Por Alex Ribeiro*
A resistência ao aborto por segmentos religiosos contra uma menina de dez anos de idade que engravidou após ser estuprada em São Mateus, no Espírito Santo, é uma ação promovida por várias vozes nos últimos anos. A menor fez o procedimento em um hospital público de Pernambuco e sofreu ataques de parlamentares da ala evangélica do Estado. A ofensiva simboliza alguns dos instrumentos utilizados por atores políticos que vão além de qualquer crença. O objetivo primordial é movimentar e crescer a sua base eleitoral e o cenário brasileiro aponta para um fortalecimento ainda maior deste grupo. 

A investida se torna comum diante do crescimento dessesrepresentantes nas Casas Legislativas do país. Na Câmara Federal, a chamada Frente Parlamentar Evangélica conta com 38% dos legisladores – o que equivale a 195 dos 513 deputados. O número mais que dobrou em relação a legislatura anterior, que contava com 98 parlamentares. Para se ter uma ideia, em 1986 apenas 12 atores políticos eram desse segmento. 

A defesa aos evangélicos é um retrato de quase um terço dos fiéis brasileiros. De acordo com o Datafolha, 31% de cidadãos se declaram adeptos a este segmento. O mesmo instituto de pesquisa também traz à tona que 19% dos brasileiros com religião apoiam as candidaturas de líderes de igrejas durante o período eleitoral. E ainda: as instituições religiosas são consideradas mais representativas para maior parte da população do que o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal.

Outro motivo para a disseminação do evangelismo está na expansão das mídias associadas a esses grupos. Em Pernambuco, das 22 rádios FMs sintonizadas, sete estão ligadas ao segmento religioso. De acordo com a análise do Kantar Ibope Media, duas dessas rádios católicas e/ou evangélicas estão entre as três com mais audiências no Estado.  

Na mídia “cristã”, alguns parlamentares ganham ainda mais força defendendo ideias conservadoras, como a “valorização da família”. São nesses espaços que ocorrem tanto discursos contra a violência, como também aversões a grupos LGBTs e ao protagonismo feminino. O debatesobre a família também chega em outras plataformas, como o Whatsapp – de acordo com o Datafolha, 69% dos usuários tratam do assunto no aplicativo. 

Muitos destes discursos, liderados por alguns vereadores e deputados, são estratégicos. Esquecem do caso Miguel, da travesti Leticia Costa assassinada no Ceará, condenam menores do tráfico à morte, e só abraçam casos que os convém. 

O repúdio ao aborto é calculado. Apagam a ação do estuprador, não o mencionam. Aqui a palavra é situada. O verbo é político. A oração vira hipocrisia. E o sermão é ilegítimo.

*Doutorando em História Política pela Universidade Federal da Bahia, cientista político pela UFPE, e jornalista.

Elielson Lima 23 ago 2020 - 11:50m

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