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Domingando Arraes torcia por qual time?

Arraes torcia por qual time?

Publicado em: 01/11/2020 - 8:03m


Por Ítalo Rocha Leitão*

Argel, capital da Argélia, 1978. Manhã de domingo. A família Arraes reunida para mais um almoço longe do continente sul-americano. Miguel Arraes sentado numa cadeira de balanço, ao lado de Dona Madalena e dos filhos.
Entre eles, o caçula Pedro, de 13 anos, o único dos dez filhos nascido no exílio, mais precisamente em Paris. Aos domingos, Arraes costumava abrir a correspondência que chegava às suas mãos na frente de todos.
Eram cartas de amigos e companheiros de várias partes do mundo, menos do Brasil. Da terra natal, não saía nada endereçado a um dos inimigos mais visados da Ditadura Militar instalada no Brasil desde o dia primeiro de abril de 1964.
Moravam, sob o mesmo teto, Arraes, Pedro e Mariana, filhos da união do viúvo Miguel Arraes com a professora Madalena Fiúza, e os outros oito filhos do primeiro casamento de Arraes com Célia de Souza Leão: José Almino, Augusto, Ana, Miguel Arraes Júnior (Guel), Marcos, Maurício, Carmen (Nena) e Luiz Cláudio (Lula).
Marcados por muitas saudades, os filhos sempre aperreavam o pai por notícias do Brasil. Já tinham se passado três meses que Pedro encomendara aos primos do Recife uma revista Placar para saber notícias do futebol. Na hora de abrir as encomendas, era o primeiro a se postar à frente do pai.
A casa deles ficava numa área central de Argel, perto do Palácio do Povo, a residência oficial do presidente socialista Boumedienne, que tão bem acolhera a família Arraes. Pedro já não se continha de ansiedade quando de repente o pai abriu uma caixa e puxou de dentro dela a tão aguardada Placar.
Sob uma alegria contagiante, o adolescente começou a folheá-la. De repente, olhou para o pai e esboçou uma expressão de tristeza e melancolia. Uma reportagem especial com sobre o futebol pernambucano deixara Pedro consternado. Estava lá escrito que o Íbis se tratava do ”pior time do mundo”. E mais: tinha apenas um torcedor, o folclórico Chico do Táxi.
Vendo o filho quase às lágrimas por ter acabado de tomar conhecimento de tão humilhante situação, Arraes olhou para ele e disse com aquele seu jeito incisivo e determinado de falar as coisas: ”Pedro, meu filho, a partir de hoje o Íbis terá dois torcedores”.
Consolado, Pedro sentou-se ao lado do pai para mais um almoço em família no exílio que os Arraes amargaram por 15 anos num país do continente africano.
De volta ao Brasil, e investido novamente no cargo de governador que o Golpe Militar de 64 lhe havia impedido de concluir, Arraes sempre era indagado por qual time pernambucano torcia.
Durante uma entrevista coletiva, numa época em que Arraes ia enfrentar as urnas e a disputa entre Náutico e Sport estava bastante radicalizada, um repórter metido a engraçado quis fazer uma provocação: ”Dr. Arraes, é verdade que o senhor é torcedor do Sport?!”.
Arraes, que com muita elegância e bom humor sabia como ninguém se sair dessas situações embaraçosas, devolveu no mesmo tom: ”Como torcedor do Íbis, que tem na sua camisa as cores vermelha e preta, eu sou rubro-negro”. E deu aquela gargalhada, tão própria dele. Quem estava por perto, e não era pouca gente, também não se aguentou.

*Jornalista da TV Globo Recife.

Elielson Lima 01 nov 2020 - 8:03m

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