Cabo
Governo – Pandemia não acabou
Domingando

Arraes, Agamenon, Tancredo e Getúlio


Por Ítalo Rocha*

A política brasileira sempre foi pródiga na criação de personagens que entraram para a história do país e ficaram para sempre na memória coletiva da população. Alguns desses personagens jamais serão esquecidos e algumas situações que vivenciaram também. Miguel Arraes, Agamenon Magalhães, Getúlio Vargas, Tancredo Neves. Os registros estão em livros ou no folclore político.

Rio de Janeiro, 1926. Posse do ministro da Fazenda Getúlio Vargas. Filas enormes para cumprimentá-lo e também para pedir algo. Mas, o último da fila se aproximou e disse que estava ali apenas para lhe desejar felicidades. Getúlio o puxou pelo braço e perguntou: Você não vai me pedir nada? Eu não vim aqui para pedir nada! E saiu apressado. Getúlio ficou emocionado com o gesto daquele homem. E, com os olhos marejados, disse a um assessor que não conseguia esquecer aquela cena. Foi quando o assessor esclareceu tudo: Dr. Getúlio, aquele homem é um maluco e uma das manias dele é ir para a posse de ministros, ficar no último lugar da fila e, na hora do cumprimento, dizer que veio apenas para desejar felicidades ao empossado!  

Nos primeiros anos da década de 60, o deputado Tancredo Neves caminhava pelos corredores da Câmara quando percebeu na direção contrária o também deputado José Maria Alckmin, outra raposa política. Tancredo ficou tenso porque Alckmin o havia convidado pro seu aniversário e ele não teria ido nem dado satisfações. Quando se cruzaram, Tancredo disse em alto e bom som: Alckmin, eu não fui pro seu aniversário, mas lhe mandei um telegrama desejando felicidades!  E Alckmin, que tinha uma astúcia invejável também, não titubeou: E eu já respondi seu telegrama, meu conterrâneo Tancredo! Nunca existiu nenhum dos dois telegramas.

No começo dos anos 50, um homem entrou aos prantos no gabinete do governador Agamenon Magalhães dizendo que, se o seu pedido fosse atendido, nunca mais votaria contra o governador. Agamenon se lembrava muito bem dele, era o maior traíra. Governador, pelo amor de Deus, meu filho se formou em agronomia e tem uma vaga na Secretaria de Agricultura. Agamenon puxou um cartão de visitas e escreveu um bilhete indicando ao secretário a colocação do jovem agrônomo. Matreiro que só, o governador tinha um código interno com os secretários. Ao escrever “faça” um favor sem o cedilha, ele queria dizer “faca”, ou seja corte! Seis meses depois daquela fatídica audiência, o governador foi visitar um município sertanejo e avistou o pai do agrônomo vindo em sua direção, todo contente e sorridente. Agamenon tentou se esquivar, mas não conseguiu. O homem chegou perto de Agamenon e foi logo dizendo:  Governador, não tenho palavras pra lhe agradecer. O meu filho se deu tão bem na secretaria que já assumiu um cargo de chefia. Governador, o meu menino é tão inteligente que, quando leu o cartão do senhor, percebeu que estava faltando um cedilha e ele colocou esse cedilha porque um governador não pode escrever errado um bilhete pra ninguém!

O ano era 1998. Arraes tentava a reeleição contra Jarbas Vasconcelos em desvantagem. Os assessores apontavam para a popular “fadiga de material” porque o governador almejava o quarto mandato. A solução poderia estar em Duda Mendonça, o publicitário mais disputado do mercado, naquela época. Tinha fama de ganhar tudo quanto era eleição. Arraes recebeu Duda Mendonça com um afago contido, como era seu estilo. Os assessores relataram para o baiano a difícil situação do estado e da campanha. E Arraes, calado, só ouvindo. Ao final, Duda Mendonça olhou pro governador e disse: Eu não faço milagre ! Arraes, com seu olhar certeiro e profundo, ficou cara a cara com o marqueteiro e respondeu: Eu pensei que fizesse !!!  

Duda Mendonça, que entrara naquela sala se sentindo o rei dos reis, saiu com o andar meio desajeitado. 

*Jornalista da TV Globo

Elielson Lima 27 dez 2020 - 6:39m

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