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Fazendo história! Miguel Arraes de Alencar – uma trajetória que começou cedo

Miguel Arraes de Alencar – uma trajetória que começou cedo

Publicado em: 23/05/2021 - 7:30m

Por Ítalo Rocha Leitão, da TV Globo

Miguel Arraes de Alencar foi governador de Pernambuco três vezes, prefeito do Recife, deputado federal e estadual. Conseguiu seu primeiro emprego ao passar num concurso público, quando ainda era adolescente.

Aos dezessete anos, o adolescente Miguel Arraes de Alencar, nascido no município do Araripe, no Ceará, deixou o Crato, onde morava, para estudar no Rio de Janeiro, e foi aprovado no vestibular de Direito. Na mesma época, passou também num concurso público para o extinto IAA, o Instituto do Açúcar e do Álcool. Como era menor de  idade, só assumiu o emprego com consentimento da Justiça. Por decisão pessoal, transferiu-se do emprego para o Recife, onde terminou o curso na Faculdade de Direito da UFPE.

Na década de quarenta, ganhou visibilidade ao assumir a Secretaria da Fazenda, no governo de Barbosa Lima Sobrinho. Cargo que ocupou pela segunda vez na gestão do governador Cid Sampaio. Os flertes com as urnas logo se fizeram presentes na sua vida. Nas eleições de 1950, disputou sua primeira eleição para deputado estadual e ficou na primeira suplência. Dois anos depois, o governador Agamenon Magalhães surpreendeu a população pernambucana ao morrer de um enfarte fulminante nos aposentos do Palácio do Campo das Princesas. Como naquela época não existia ainda a figura do vice-governador, o presidente da Assembleia Legislativa, o deputado Torres Galvão, se licenciou para assumiu o governo, interinamente, até a realização de novas eleições. E a vaga aberta foi assumida por Arraes. Depois, com o assassinato do deputado José Santana, de Flores, por questões pessoais,  Miguel Arraes assumiu definitivamente o mandato. Nas eleições seguintes, renovou o mandato de deputado estadual. Mas, em 1958, não conseguiu se reeleger.

E foi dessa forma que Miguel Arraes, no ano seguinte, ficou assustado com um convite, ou melhor, uma intimação das lideranças de esquerda de Pernambuco. Deveria ser o candidato a prefeito do Recife!  “Mas, como, se meus votos são tão pouquinhos?” – ponderou Arraes, com aquele seu jeitão sábio de enxergar a vida. Mas, a foice e o martelo já estavam batidos: querendo ou não, Miguel Arraes era o candidato a prefeito das forças progressistas!

Eleito prefeito, Arraes fez uma administração que logo ganhou destaque junto à população e lhe forneceu o passaporte para outros voos, que ele nem sequer imaginava que estivessem em curso. A preocupação com a população urbana e a forma de melhorar o acesso das comunidades pobres à cultura e à educação estavam em cima do birô do novo prefeito do Recife. Arraes fez o traçado urbano do bairro da Imbiribeira, construiu a Ponte de Limoeiro (liga Santo Amaro ao Bairro do Recife), as avenidas Sul, Abdias de Carvalho e Conselheiro Aguiar. Concluiu a Avenida Norte e pavimentou com concreto a Avenida Boa Viagem. Obras que até hoje servem à população do Recife. Quando incentivou e apoiou a criação do Movimento de Cultura Popular, o MCP, Arraes mostrou que queria governar para todos. Em apenas dois anos, vinte mil crianças pobres do Recife, que viviam marginalizadas e sem acesso à educação, foram alfabetizadas. Germano Coelho, que mais tarde viria a ser deputado e prefeito de Olinda, foi fundador e primeiro presidente do MCP, e a coordenação ficou a cargo do escultor Abelardo da Hora. O Movimento funcionava no Sítio da Trindade, em Casa Amarela, na Zona Norte do Recife. Jovens e adolescentes pobres tiveram os primeiros contatos com o teatro, a pintura, a música e a poesia. E foi no MCP que o ator José Wilker, o artista plástico Welington Virgolino e o compositor Carlos Fernando incursionaram pela vez no mundo da cultura.

O antigo prédio da prefeitura do Recife ficava na Rua da Aurora. A separá-lo do Palácio do Campo das Princesas, apenas o Rio Capibaribe. E Arraes foi convocado para atravessá-lo. Ficou receoso novamente, mas nada pôde fazer porque sua candidatura já era um mote permanente na boca do povo. Abertas as urnas, estava eleito para o que viria a ser o seu primeiro mandato à frente do Governo de Pernambuco.

Como governador, ampliou o programa de alfabetização de jovens e adultos pobres, estimulou a luta dos trabalhadores rurais da Zona da Mata por direitos trabalhistas, intermediando a negociação entre camponeses e usineiros, que ficou conhecida como o “Acordo do Campo” . Por esse pacto, os direitos trabalhistas dos canavieiros passaram a ser respeitados, os salários da categoria foram regulamentados e ficaram acima do mínimo. Foi aí que Arraes ganhou a confiança e a gratidão eterna dos canavieiros. E nunca mais deixou de ser chamado de “Pai Arraia” – um sincretismo político que ele entendia muito bem quando assim era chamado. Outra obra importante do seu primeiro governo foi a criação de uma farmácia para vender remédios mais baratos à população pobre, o que mais tarde viria a incentivá-lo a criar o Lafepe, Laboratório Farmacêutico de Pernambuco, até hoje em funcionamento. A ideia de vender remédios mais baratos foi tão bem planejada que, décadas depois, serviu de modelo para o governo do presidente Lula adotar no Ministério da Saúde, na gestão do ministro Humberto Costa, tendo como carro-chefe as “Farmácias Populares”.

Mas, no segundo ano de governo, veio o grande pesadelo de Arraes. Os militares deram um golpe de estado e tiraram o presidente João Goulart do poder. Em Pernambuco, tentaram contemporizar com o governador. Ele renunciaria ao mandato e em troca ganharia a liberdade. Proposta indecorosa para um homem do quilate de Arraes. No dia primeiro de abril de 1964,

Arraes foi preso. Da prisão no Recife, foi levado para Ilha de Fernando de Noronha. De lá, em liberdade provisória, Arraes seguiu para o Rio de Janeiro. Em 1965, partiu para um longo exílio de 14 anos em Argel, capital da Argélia, na África, na companhia da família. Ao voltar, em 1979, Arraes reconstruiu sua vida política. Foi eleito deputado federal, em 1982. Dedicou parte do mandato à luta pelas eleições diretas para a Presidência da República. Em 1986, voltou ao Palácio do Campo das Princesas para governar Pernambuco pela segunda vez. No retorno ao governo de Pernambuco, eletrificação de pequenas propriedades rurais, irrigação, crédito agrícola e o Chapéu de Palha, programa criado para dar emprego aos trabalhadores rurais da Zona da Mata durante a entressafra da cana-de-açúcar – quando a categoria fica ociosa e sem renda nenhuma. O Chapéu de Palha está até hoje em atuação.

Após deixar o segundo governo, em 1990, Arraes foi eleito deputado federal com a maior votação do Brasil. Em 1994, foi mais uma vez eleito para governar o Estado pela terceira vez. Sendo o único político a ser três vezes eleito governador de Pernambuco. Quando encerrou seu terceiro e último mandato, Arraes tinha contabilizado 2.955 dias à frente dos destinos da população pernambucana. No dia 13 de agosto de 2005, o coração de Arraes bateu pela última vez. Ele tinha 88 anos e estava há quase dois meses internado no Hospital Esperança, no bairro da Ilha do Leite, no Recife. Miguel Arraes de Alencar deixou na mente e no coração da população pernambucana a imagem refletida em um dos seus poemas preferidos, de autoria do pernambucano Joaquim Cardozo:

“Sou um homem marcado

mas esta marca temerária

entre as cinzas das estrelas

há de um dia se apagar!”.

Elielson Lima 23 maio 2021 - 7:30m

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